Um conto de Haloween.

Olá!

Esse ano tenho sido muito digital influencer, e assim como participei do BEDA, queria participar de algo que envolvesse o Haloween, mas não pude procurar nenhum projeto com outros blogs por estar numa correria sem fim. Pra não passar vontade, decidi escrever um conto com o tema, e depois de muito pensar se deveria ou não postá-lo aqui, decidi publicá-lo no Wattpad (uma plataforma mais organizada, sensata e que me dá espaço até para futuros contos) porque achei que o assunto do mesmo não iria combinar muito com os cactos do layout, hehe.

O conto é curto, apesar de ter capítulos, só o fiz para conseguir dividir melhor os momentos. O nome é Fatum, e vocês podem lê-lo aqui. Só gostaria de reforçar que sou bem cética em relação ao sobrenatural, o que me levou a escrevê-lo com um "horror" diferente.


Como um extra, pra esse post não ficar extremamente chato, vou indicar algumas leituras da mesma plataforma:



Um conto sobre a Lídia, que desde pequena, assim como eu e provavelmente você, sempre achou que os outros são mais inteligentes que ela e sabem melhor o que estão fazendo no mundo, até que um acontecimento muda tudo e Lídia precisa decidir se quer mesmo ser sempre a pessoa que não tenta. 

São contos que podem ser lidos fora da ordem cronológica e falam sobre os clientes que passam pelo Blue Cup Cafe, no ponto de vista da atendente, um amorzinho!

Não é um conto, então só recomendo para quem estiver com mais tempo de leitura sobrando. Conta a história de Brie, que ainda criança precisa ser levada a psiquiatras e terapeutas, e mostra sua vida convivendo com transtornos mentais. Simples, mas ótimo para quebrar alguns preconceitos bobos que a maioria das pessoas ainda têm com saúde mental.

Lê algo no Wattpad? Publica por lá? Vou adorar saber!

13 de Outubro.


Não seria uma quinta-feira comum, ela sabia disso, já que sua rotina havia sido modificada, só não imaginava o que uma mudança de horário causaria. Naquela manhã ficou em casa, almoçou e só então saiu para seu compromisso. O primeiro passo para o rompimento estava sendo feito, mas nenhuma diferença era notável. Chegou em seu local de destino 15 minutos mais cedo, e ao contrário do seu costume, não tirou o livro da mochila enquanto esperava. Permaneceu ali, sentada sozinha na escada enquanto observava a rua. 

Viu a terapeuta passar em seu carro quando faltavam 3 minutos para o horário combinado. Nesse tempo final de espera se perguntou como podia alguém demorar tanto para atravessar uma rua, mas ainda assim sorriu verdadeiramente ao vê-la chegar. Dali em diante sabia o que fazer: sentar, falar, ouvir, falar, ouvir e assim seria por 1 hora inteira. 

Mas não foi.

Sentou, ouviu, falou e quando percebeu os óculos já não estavam mais em seu rosto e o olhar da pessoa a sua frente dizia muito. Aquele era o seu máximo. Não aguentava mais carregar o seu e o dos outros, não suportava a ideia de continuar sem encontrar alguém com quem pudesse ser verdadeira sobre tudo o que se passava ali dentro. "Você precisa parar de achar que deve engolir tudo, é muita coisa pra uma pessoa só! Aceita que você também pode errar, aceita que nem tudo tá sob o seu controle!".

Era só o inicio.

Uma hora depois precisava ir para outro lugar, mas como nunca andara sozinha naquela região, estava sem a mínima ideia do que (e como) fazer para chegar lá. Decidiu seguir em frente naquela mesma rua, pois acreditava que sairia no centro da cidade. Errou.

Continuou andando sem pedir informações, já que em seu caminho só apareciam homens que a olhavam de maneiras não muito convidativas. Parou em uma grande avenida, onde encontrou um corredor especial para o transporte público. Na mochila só possuía uma nota de R$ 50, então entrou em uma mecânica próxima ao local para quem sabe conseguir o dinheiro da passagem. Agradeceu a qualquer força superior, dada sua falta de fé, por encontrar uma mulher ali dentro, mas percebeu sua pouca sorte ao ouvir que precisaria ir ao bar mais próximo tentar troca-la. Ao entrar no bar notou o olhar curioso do dono, que trocou seu dinheiro sem balbuciar qualquer palavra e a olhava de uma maneira estranha. Até chegar no ponto olhou 4 vezes para trás, só pra confirmar que não estava sendo seguida. O ônibus veio, e ao encostar sua mochila contra a porta fechada do transporte, agora em movimento, finalmente pode pensar em tudo que havia acontecido dentro daquelas 3 horas que estava fora de casa. Não era mais a mesma.

Se perder em um lugar diferente sem poder confiar em ninguém para pedir ajuda, andar até encontrar o lugar mais provável de tirá-la dali, entrar em um ônibus com a estrutura completamente diferente do que sempre pega, com pessoas que nunca viu antes, um motorista que não conhece a grande maioria da sua família e um cobrador que a tratava de maneira grossa percorrendo um trajeto totalmente oposto ao que sempre faz foi o estalo que há tanto tempo precisava ouvir.

Até tentou ignorá-lo inicialmente, quando desceu naquele ponto em que nunca havia estado e pela intuição cortou caminho até seu local habitual. Mas a visão que tinha da mesma sala, com as mesmas cadeiras e as paredes amarelas agora era diferente. Tudo era igual, mas nada parecia o mesmo. As conversas a volta eram muito paralelas, as pessoas de sempre não eram quem ela pensava, o desconforto crescia cada vez mais. O intervalo chegou e como se não bastasse toda a estranheza já vivida, a chuva fez com que saísse por uma porta diferente, atrasando sua chegada na cantina. O último salgado foi dado a pessoa a sua frente, e ela, de mãos atadas, optou pelo único pão de mel que sobrara (esse, que em dois anos ali nunca comeu), e ainda graças à tempestade, precisou sentar em um lugar diferente do mesmo de sempre. Conversou com uma pessoa diferente, sobre coisas que não conversa com a mesma amiga de sempre e ao ir no banheiro pode ver a pequena marca roxa em seu joelho. 

Foi quando entendeu. No conto Amor, de Clarice Lispector, alguns acontecimentos do dia fazem com que a personagem principal tenha um momento de epifania, mas ainda assim retorna a sua rotina e a segue sem deixar que tais acontecimentos mudem tudo ao seu redor. Aquele havia sido seu momento de epifania, o dia que marcaria todas as suas mudanças, mas em seu caso, elas mudariam todo o rumo das coisas.

Não queria mais percorrer longos caminhos sem poder confiar em ninguém para compartilhar tudo o que precisava ser dito. Não queria mais carregar o peso nas costas enquanto andava. Não queria mais ficar com a sensação de saber para onde ir, mas não saber como chegar. De sempre ouvir os outros e nunca ter quem ouvi-la, de enxergar as coisas de um só jeito por pura conformidade. Não queria e não precisava.

Na mesma semana, alguns dias antes, quando questionada que coisas diferentes costumava fazer, pensou em todos os textos que já escreveu, mas ao invés de citá-los, preferiu se anular e dizer que não fazia nada.

Aquela pessoa não existia mais.

Era 13 de Outubro.

Tudo o que antecedera àquele dia não dizia mais nada sobre quem ela era. Que os próximos dias sirvam para entender o que afinal aquele espaço de tempo causou.


Observação: não esperava todo o retorno que tive no texto anterior. Obrigada, de coração!

Roger Waters me entenderia.



Nessa semana saíram várias matérias sobre o ranking de ensino nas escolas paulistanas de acordo com a nota do ENEM, que acontecerá novamente dentro de um mês. Entre todas as comemorações das escolas particulares que servem exclusivamente a uma população cujos pais dos alunos são médicos, advogados e engenheiros, me perguntei quando foi que a educação passou de algo essencial para todos por lei para uma disputa pra saber quem passa no curso mais concorrido daquela universidade talvez um pouco subestimada. Com esse pensamento surgiu a pergunta: a vitória desse ranking pertence a quem? É mesmo justo obter o primeiro lugar pagando mais de R$ 2.000,00 mensais para se alcançar o topo de algo que não deveria ter se tornado mais uma das competições que nos fazem máquinas incapazes de sermos quem realmente somos em nome do sucesso profissional, esse que talvez lá na frente não seja o que você pensou e te faça mais mal que bem?

A minha vida toda estudei em escola estadual. E ao contrário de alguns que estudam boa parte na particular e no Ensino Médio mudam para a pública a fim de conseguir burlar alguns sistemas de vestibulares, nunca tive outra opção; ou estudava na pública, ou não estudava. Vivenciei nesses mais de 10 anos dentro desse sistema o que todos já viram nos jornais: não tem papel higiênico, não tem merenda, não tem aula, não tem profissional capacitado para nos ajudar com questões estudantis, não tem vigilância dentro da própria sala de aula e se tem professor, ele não vai te dar aula. Nunca vi ninguém comentar sobre isso com sinceridade, mas não vou deixar de falar: a grande maioria dos professores são responsáveis pelo desencorajamento dentro dessas escolas. No meu Ensino Médio inteiro, meu professor de Física apenas entrava na sala, sentava e ali ficava por 50 minutos. No fim do bimestre uma prova da matéria surgia em nossas frentes como se alguém fosse capaz de entender o que os enunciados dos exercícios queriam. Durante os três anos do Ensino Médio, eu acreditava que Física se resumia à "delta-t-sobre-delta-s". Ao contrário do que se têm  falado internet a fora, em Sociologia e Filosofia nós nunca realmente aprendemos a questionar o sistema em que vivíamos, e nunca fomos influenciados a apoiar nenhum lado politico, porque na verdade, a grande maioria dali, sem possuir interesse no assunto, ganhou o certificado de Ensino Médio completo sem saber diferenciar quem a Direita beneficia e quem a Esquerda apoia. Em Biologia, a única coisa que vimos sobre Botânica estava ligada a fotossíntese, eu JAMAIS saberia da existência de briófitas e pteridófitas se não tivesse a oportunidade de entrar em um cursinho pré-vestibular. E quando digo oportunidade, é porque realmente foi uma.

Ao contrário do que talvez pareça, não pertenço a Classe Média. Só frequento o pré-vestibular porque aos 16, como a grande maioria que vem do ensino público, comecei a trabalhar e assim permaneci por três anos seguidos, juntando dinheiro suficiente para poder pagar meus estudos - estudos que hipoteticamente eu não precisaria fazer após três anos no Ensino Médio, mas se até os alunos das escolas privadas partem para os cursos preparatórios, como eu, que sabia menos que o básico, seria capaz de entrar em uma universidade competindo com eles? - e reconheço o privilégio que tenho, porque 95% das pessoas que estudaram comigo ou nem sequer cogitam a possibilidade de estudar algo ou entraram em faculdades desconhecidas até pelo MEC, e por mais que seja errado tirar o mérito de pessoas que partem para o Superior privado é necessário confessar: em uma entrevista com um candidato que possui diploma da estadual contra um da privada-não-tão-falada é fácil saber para quem as preferências irão apontar. 

Recentemente a USP se encheu de orgulho para anunciar que aumentou a porcentagem de alunos oriundos de escolas públicas matriculados em seus cursos. Em que mundo paralelo precisamos viver para acreditar que tais alunos não precisaram passar por um sistema de ensino particular depois do Ensino Médio, assim como eu, assim como muitas pessoas que conheço? Como um aluno da escola pública vai ser capaz de responder 90 questões, passar para a 2ª fase dissertativa e entrar em uma universidade onde os alunos com renda superior a sete salários mínimos ultrapassa os 50%?

Dentro do cursinho fica cada dia mais doloroso perceber o quanto fui prejudicada pelo ensino gratuito que nada ensina e nada motiva. É cruel ver pessoas mais novas que eu reclamando por não conseguir isenção da taxa dos vestibulares quando o pai é um advogado, a mãe engenheira ou a família pertence a uma geração inteira de médicos. É revoltante escutar pessoas de 17/18 anos dizendo que seus pais são pessoas ruins porque não quiseram pagar a bebida alcoólica dele e dos amiguinhos no fim de semana, quando a única coisa que eu enxergo são pais que com a possibilidade de pagar pela educação, pelas roupas, pelas contas e pelo entretenimento do filho acreditam que o mesmo reconhece o esforço feito. E não, nunca vai reconhecer, porque infelizmente só aprendemos a valorizar o sol depois da tempestade, não é?

É um texto sem conclusão, porque o problema continua (e infelizmente continuará) em aberto por muito tempo. O sistema educacional atual é mais um reflexo da sociedade injusta em que vivemos, onde vence quem tem mais dinheiro. Eu realmente espero estar viva para ver o dia em que o público será preferível ao privado, mas como todos nós acompanhamos, é uma utopia cada vez mais distante.

*Em caso de possíveis dúvidas, Roger Waters era integrante da banda Pink Floyd, foi ele o compositor de Another Brick In The Wall. 

P.S: sei que no geral costumo abordar o cotidiano de forma mais cômica aqui no blog, mas isso era algo há muito entalado, precisava escrever esse texto.

Só acontece comigo #52



Mensalmente vou ao dentista, e bom, ir em um lugar contra minha vontade já deixa no ar o cheirinho do "O que eu tô fazendo aqui?", mas até que quando vejo meus dentinhos ficando bonitões sinto que vale a pena o esforço, sabe? Enfim, divago.

Na última vez em que estive lá, acompanhada de mamãe pois maior de idade sim, sozinha em consultórios nunca , ficamos na recepção um tempinho e por ironia do destino o filme passando na Sessão da Tarde era O Diário de Tati. 

Eu devia ter entendido o que o universo estava tentando me dizer.

Estávamos alternando entre olhares nervosos de quem não tem paciência pra esperar ser atendida e olhares de apreciação para a TV, já que a Heloísa Périssé nesse papel é algo bizarro, mas ao mesmo tempo gratificante, quando eis que chega meu dentista, esse descendente de italiano que fala altíssimo, (nada contra descendentes de italianos, inclusive sou) olha para a TV justo em um momento de um beijo DAQUELES, bate com as costas da mão no braço da minha mãe e exclama:

- QUE BEIJÃO HEIN MEU! OLHA PRA ISSO, MEU FILHO DE 15 ANOS FICA DOIDO QUANDO VÊ ESSAS COISAS! HMMMMM QUE GOSTOSO, OLHA LÁ!

Vocês não fazem ideia de como foi difícil ficar com a boca aberta pra esse homem depois.

Não fazem mesmo.