13 de Outubro.


Não seria uma quinta-feira comum, ela sabia disso, já que sua rotina havia sido modificada, só não imaginava o que uma mudança de horário causaria. Naquela manhã ficou em casa, almoçou e só então saiu para seu compromisso. O primeiro passo para o rompimento estava sendo feito, mas nenhuma diferença era notável. Chegou em seu local de destino 15 minutos mais cedo, e ao contrário do seu costume, não tirou o livro da mochila enquanto esperava. Permaneceu ali, sentada sozinha na escada enquanto observava a rua. 

Viu a terapeuta passar em seu carro quando faltavam 3 minutos para o horário combinado. Nesse tempo final de espera se perguntou como podia alguém demorar tanto para atravessar uma rua, mas ainda assim sorriu verdadeiramente ao vê-la chegar. Dali em diante sabia o que fazer: sentar, falar, ouvir, falar, ouvir e assim seria por 1 hora inteira. 

Mas não foi.

Sentou, ouviu, falou e quando percebeu os óculos já não estavam mais em seu rosto e o olhar da pessoa a sua frente dizia muito. Aquele era o seu máximo. Não aguentava mais carregar o seu e o dos outros, não suportava a ideia de continuar sem encontrar alguém com quem pudesse ser verdadeira sobre tudo o que se passava ali dentro. "Você precisa parar de achar que deve engolir tudo, é muita coisa pra uma pessoa só! Aceita que você também pode errar, aceita que nem tudo tá sob o seu controle!".

Era só o inicio.

Uma hora depois precisava ir para outro lugar, mas como nunca andara sozinha naquela região, estava sem a mínima ideia do que (e como) fazer para chegar lá. Decidiu seguir em frente naquela mesma rua, pois acreditava que sairia no centro da cidade. Errou.

Continuou andando sem pedir informações, já que em seu caminho só apareciam homens que a olhavam de maneiras não muito convidativas. Parou em uma grande avenida, onde encontrou um corredor especial para o transporte público. Na mochila só possuía uma nota de R$ 50, então entrou em uma mecânica próxima ao local para quem sabe conseguir o dinheiro da passagem. Agradeceu a qualquer força superior, dada sua falta de fé, por encontrar uma mulher ali dentro, mas percebeu sua pouca sorte ao ouvir que precisaria ir ao bar mais próximo tentar troca-la. Ao entrar no bar notou o olhar curioso do dono, que trocou seu dinheiro sem balbuciar qualquer palavra e a olhava de uma maneira estranha. Até chegar no ponto olhou 4 vezes para trás, só pra confirmar que não estava sendo seguida. O ônibus veio, e ao encostar sua mochila contra a porta fechada do transporte, agora em movimento, finalmente pode pensar em tudo que havia acontecido dentro daquelas 3 horas que estava fora de casa. Não era mais a mesma.

Se perder em um lugar diferente sem poder confiar em ninguém para pedir ajuda, andar até encontrar o lugar mais provável de tirá-la dali, entrar em um ônibus com a estrutura completamente diferente do que sempre pega, com pessoas que nunca viu antes, um motorista que não conhece a grande maioria da sua família e um cobrador que a tratava de maneira grossa percorrendo um trajeto totalmente oposto ao que sempre faz foi o estalo que há tanto tempo precisava ouvir.

Até tentou ignorá-lo inicialmente, quando desceu naquele ponto em que nunca havia estado e pela intuição cortou caminho até seu local habitual. Mas a visão que tinha da mesma sala, com as mesmas cadeiras e as paredes amarelas agora era diferente. Tudo era igual, mas nada parecia o mesmo. As conversas a volta eram muito paralelas, as pessoas de sempre não eram quem ela pensava, o desconforto crescia cada vez mais. O intervalo chegou e como se não bastasse toda a estranheza já vivida, a chuva fez com que saísse por uma porta diferente, atrasando sua chegada na cantina. O último salgado foi dado a pessoa a sua frente, e ela, de mãos atadas, optou pelo único pão de mel que sobrara (esse, que em dois anos ali nunca comeu), e ainda graças à tempestade, precisou sentar em um lugar diferente do mesmo de sempre. Conversou com uma pessoa diferente, sobre coisas que não conversa com a mesma amiga de sempre e ao ir no banheiro pode ver a pequena marca roxa em seu joelho. 

Foi quando entendeu. No conto Amor, de Clarice Lispector, alguns acontecimentos do dia fazem com que a personagem principal tenha um momento de epifania, mas ainda assim retorna a sua rotina e a segue sem deixar que tais acontecimentos mudem tudo ao seu redor. Aquele havia sido seu momento de epifania, o dia que marcaria todas as suas mudanças, mas em seu caso, elas mudariam todo o rumo das coisas.

Não queria mais percorrer longos caminhos sem poder confiar em ninguém para compartilhar tudo o que precisava ser dito. Não queria mais carregar o peso nas costas enquanto andava. Não queria mais ficar com a sensação de saber para onde ir, mas não saber como chegar. De sempre ouvir os outros e nunca ter quem ouvi-la, de enxergar as coisas de um só jeito por pura conformidade. Não queria e não precisava.

Na mesma semana, alguns dias antes, quando questionada que coisas diferentes costumava fazer, pensou em todos os textos que já escreveu, mas ao invés de citá-los, preferiu se anular e dizer que não fazia nada.

Aquela pessoa não existia mais.

Era 13 de Outubro.

Tudo o que antecedera àquele dia não dizia mais nada sobre quem ela era. Que os próximos dias sirvam para entender o que afinal aquele espaço de tempo causou.


Observação: não esperava todo o retorno que tive no texto anterior. Obrigada, de coração!

5 comentários:

  1. é engraçado como às vezes a gente tem esses momentos de epifania com alguma coisa completamente besta que acontece, né? uma conversa com algm que nunca falou antes, uma coisa que vc na rua e nem é com vc, um olhar torto que vc pega sem querer... a cabeça da gente funciona de uma maneira bem engraçada! ainda que teu momento tenha sido na terapia, o que a gente acha o lugar mais "adequado" pra tê-lo, eu acho o máximo perceber a maneira e o tempo que a gente leva pra processar tudo e, depois dele, se encontrar. falar "a partir de agora é assim". é um processo muito único, né?

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  2. Seu texto me cativou, até abaixei a música alta pra prestar atenção em cada palavra. Até começar meu estágio nesse ano, estava muito acostumada a minha rotina, meu trajeto, até o motorista de sempre. Quando comecei a trabalhar e via pessoas diferentes, no começo me sentia tão deprimida ao ponto de chorar. Com um medo fora do comum, uma sensação ruim. A terapia me ajudou e muito a perder essa sensação de que mudanças são ruins. Passei a ter mais confiança em lugares que não conheço e foi de suma importância pra mim.

    http://www.rosastenue.com.br/

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  3. Lindo demais, achei pessoal e ao mesmo tempo tão fictício! Me tocou profundamente, nem tenho tantas palavras para expressar!

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  4. OOOOOOI

    acho que melhor que mudar de rotina é quando a gente muda por dentro e automaticamente, mesmo a rotina, passa a ser diferente. A gente nunca sabe quando isso vai acontecer, mas do nada algo desencadeia o nosso melhor.

    Achei seu texto muito lindo e cheio de sensibilidade. Na real, eu adoro o modo como você escreve as coisas <3

    beijo
    beinghellz.com

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  5. Uau, quantas coisas a serem observadas. Como é difícil carregar o peso de uma mudança, se adaptar a uma nova rotina, sem as pessoas a que estamos habituadas. Também gostei da forma como abordou o fato do desconforto em meios aos olhares indesejados, às pessoas desconhecidas que não oferecem conforto algum. De como é necessário que percorramos muitas vezes um lngo caminho em meio ao desconhecido, para notarmos que o que precisamos é de uma mudança interna, que ditará o rumo que tomaremos. Lindo texto lindo e profundo e tocante e lindo. Sem vírgulas mesmo.
    Um beijo(escreve um livro de crônicas logo, mulher)!

    Blog Insaturada

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