Self image 2017.



Eu escrevo. Escrevo quando não consigo encontrar ninguém com quem posso falar, quando tenho pessoas com quem falar e preciso passar adiante, quando tudo é grande e sufocante, ou tão pequeno a ponto de causar agonia. Com ou sem motivo, eu escrevo.  

Sou a parte final da minha família paterna e carrego o peso de poder - ou não - dar continuidade ao nosso sobrenome (justo esse, que não gosto tanto como o outro) e no lado materno, carrego o peso de precisar alcançar toda uma geração com faixa etária parecida, mesmo que nenhum deles faça a mínima ideia de quem eu realmente sou além do sorriso forçado quando ali estou. 

Sou a pessoa que caminha às 9 da manhã e passa creme em todo o corpo antes de dormir, mas que esquece de passar protetor solar e que toma refrigerante com uma frequência perigosa, sou a ligação entre o benéfico e o não-tão-bom-assim, o que me faz, mais do que nunca, uma pessoa completa.

Mas nem tão completa assim (estou no caminho) (eu e o resto do mundo).

Sou a sombra durante o almoço ao lado da biblioteca, sou quem deixa os rastros de borracha pelo chão e a amiga que passa duas aulas abraçada com quem precisa de um pouco de atenção. Eu sou o meu poema favorito, aquele em que Drummond diz que a vida acontece e que nós apenas precisamos reagir a ela sem deixar que tudo pese demais, e desde que o adotei como "meu" poema o mundo realmente se tornou menos pesado (ou eu fiquei mais forte). Sou a corrida em baixo da chuva mesmo com a sombrinha na mão (porque precisava me sentir viva); sou a saída antes da hora da sala de aula para o lugar onde eu sempre vou quando preciso respirar fundo e sentir o vento no rosto; sou os ataques de riso fora de hora e a mania de falar alto demais quando estou confortável com alguém; sou a tarde de domingo deitada no mato sem falar nada enquanto penso demais; sou a noite de sábado perdida no centro de São Paulo com amigos e amigos de amigos e a razão para naquele dia o moço da mesa ao lado ter cantado sertanejo; sou a filha única; sou o corte em cicatrização; sou os braços cruzados, a cara fechada e as pernas inquietas; sou o olhar inseguro acompanhado das opiniões fortes demais; sou o sarcasmo mesmo que não o queira ser, o ceticismo mesmo quando tento escolher um lado e ainda assim, o amor. O amor a quem fui, a quem sou e a quem quero ser. 

A ideia do Self Image é do Eric que os publica anualmente. No blog você encontra as versões de 20142015 e 2016.

4 comentários:

  1. Acho que vou tentar participar desse projeto, apesar de sempre me enrolar demais quando tento escrever um pouco sobre mim. Eu amei te conhecer em palavras. Esse último parágrafo de "Sous" foi o que mais me prendeu a atenção. Quem você é soa com uma delicadeza tão poética chega a ter aura de felicidade.

    Com carinho,
    Conto Paulistano.

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  2. Eu acho tão difícil escrever sobre mim.
    Gostei muito do texto sobre você.
    Beijos, Aline
    Verso Aleatório

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  3. Moça, que texto mais UAU. Será que me vi um pouco nesse texto(?) talvez. Que lindo, amei forte <3
    Beijinhos.

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  4. Amiga, que lindo seu self-image! Eu já fiz dois anos, mas nossa, agora to até com vergonha HAHAHAHHA. Quanta coisa cabe dentro da gente, né (e ainda bem que a gente é flexível pra sempre caber mais :P)

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