06 maio 2020

Tenho em mim todas as dores do mundo.

Em 2016, quando vi a professora de literatura do pré-vestibular se emocionar na frente de toda a sala lendo Drummond, lembro de ter pensado que aquele seria um dos momentos bonitos que grudam na nossa memória e não saem nunca mais. Estava certa. Meses depois, Os Ombros Suportam o Mundo se tornou meu poema favorito -- e para o qual eu volto de tempos em tempos e sinto que sou preenchida por. 

Quando meu pai foi embora, olhei pela janela da sala, o vi colocando as últimas coisas no carro e dando a partida. Quando tudo acabou fiquei em uma sala vazia, mas cheia de lágrimas. Peguei a vassoura e terminei de chorar enquanto limpava a poeira que o desmonte dos móveis deixou. Hoje em dia, se olho pela mesma janela, ainda sinto que preciso começar a varrer. 

Esse ano -- nos dias em que isolar-se ainda era opção, e de certa forma, diversão para um sábado à noite de descanso --, fiz minha primeira tatuagem. A planejei desde os 17 anos, mais ou menos. A nuvem com gotas de chuva caindo hoje me acompanha aonde quer que eu vá. Ela aconteceu porque um dia em algum ano entre 2010 e 2012, descobri a música Stop Crying Your Heart Out, do Oasis, enquanto lia alguma fanfic. Achei a música bonita e baixei, alheia ao sentimento que ela possuiria pra mim mais tarde. Além disso, a nuvem aconteceu porque já fui alguém muito pessimista, e a visão da água que sai pra tudo clarear me lembra que às vezes é preciso deixar ir. Escapar. Sair. Cair. Esvaziar. 

Segurei tanta coisa nos últimos quatro anos. 

Hoje doeu. 

Meus ombros suportaram demais. 


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

E não tivesse mais irmandade com as coisas

Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua

A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada

De dentro da minha cabeça,

E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Trecho do poema Tabacaria, de Fernando Pessoa. 


9 comentários

  1. O meu estômago sempre reclama quando seguro muitas coisas por muito tempo... #gastrite

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  2. Oi, Tati.
    Eu sou daquelas pessoas que odeia chorar e, em contrapartida, tem o choro muito fácil. Eu choro lendo livros tristes ou felizes, vendo filmes... Em certa época da minha vida, chorava vendo cachorrinhos de rua. Mas eu choro mesmo é quando estou com raiva e são esses momentos que eu mais detesto.
    Mas eu sei que o choro é necessário e que, em certos momentos, vem pra aliviar a pressão nos ombros, no coração.
    Espero que você esteja bem, agora.
    Beijos! Feliz dia das mães pra sua mãezinha. ❤️

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  3. rQue linda postagem, Tati, a forma como você expressou tudo isso que sentia e sente. De certa forma, me identifico. Costumo guardar as coisas sempre para mim, sobretudo as dores. Fiquei curiosa sobre o desenho da tattoo. Um beijo ♥

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  4. Fiquei meio triste com o teu post, mas gostei de saber o significado da tua tatuagem. Só faltou uma fotinha pra gente admirar!

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  5. Eu tenho um pequeno coração chorando tatuado perto dos seios :c sei como é

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  6. que post lindo ♥ entendo muito isso de segurar e guardar mágoas por muito tempo. vez ou outra me pego pensando em mágoas de mais de 10 anos atrás, que nem sabia que carregava comigo, mas que certamente moldaram a pessoa que eu sou. nossa cabeça pode funcionar de uma forma muito doida.

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  7. Que texto lindo!
    Amei o significado da tatuagem, apesar de ser heavy. Acho que nesse momento absurdo que estamos vivendo tudo fica mais pesado, escuro, sempre chove dentro da gente.
    Guenta firme!
    Seguimos!

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  8. Acho que é preciso segurar muitas dores, ao longo da vida, e saber fazer com que as nuvens negras passem, que a água caia e que venham dias de nuvens limpas e céu aberto.

    Espero que fiques bem.

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  9. "meu coração não é o maior do mundo
    é muito menor
    nele não cabem nem as minhas dores."

    almaantiga.blogspot.com/

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