Robin demais. | BEDA #28



Robin Scherbatsky, personagem de How I Met Your Mother, se encaixa no perfil cujos maiores objetivos de vida envolvem construir uma carreira de sucesso, viajar o mundo e ser independente. Na série, todas as pessoas que de alguma forma cruzam o caminho dela acabam se encantando (Patrice, por exemplo, possui uma eterna crush de amizade na mesma, Ted se apaixona desde a primeira vez que a vê no bar, Marshall, Barney e Lily  fazem dela uma grande amiga) e no decorrer das 9 temporadas vemos o esperado realmente acontecer: Robin consegue uma carreira de sucesso, não depende de outras pessoas, viaja para países diferentes, se apaixona, mesmo que desde o inicio esse nunca tenha sido o fator principal de sua existência e assim segue-se a série. Tudo lindo, tudo ótimo, até você perceber que é muito Robin na vida real.

Não estou de maneira alguma defendendo o combo virtual de não-se-apegue-a-pessoas-seja-livre-beije-muitas-bocas (se você por acaso quiser ser livre e beijar muitas bocas, saiba que nem eu, nem nenhuma outra pessoa têm o direito de apontar algum erro nessa decisão, viva la vida da sua melhor maneira) porque na realidade não tenho condições psicológicas/emocionais/sociais suficientes pra lidar com esse padrão de vida, mas uma coisa que eu noto com muita frequência é essa minha dificuldade em me entregar à outros, em aceitar que tô gostando e dedicar uns pagodes pra pessoa, porque eu realmente não me vejo casada com ninguém, e ao contrário do que todo mundo diz quando eu converso sobre isso, não tem nada a ver com minha pouca idade ou o fato de não ter encontrado alguém que me despertasse o desejo de selar o relacionamento diante das leis capitalistas manipuladoras, eu só me conheço bem o suficiente pra saber que de duas uma: ou eu fugiria, assim como a Robin fez por anos, ou casaria e a pessoa não aguentaria, tal qual aconteceu com Robin também.



Apesar de introvertida, eu nunca fui a solitária da escola, o que me fez ter anos de experiência com amizades femininas, e se tem uma coisa que eu aprendi muito bem com essa vivência, é que as minhas amigas sempre vão estar apaixonadas e eu não. Aos 10 anos, minha melhor amiga da época gostava do mesmo menino desde os 7, até que finalmente conseguiu fisga-lo, enquanto eu só queria saber de ficar em dia com os capítulos de Floribella. Dos 11 aos 14 eu vi muitos, mas muitos mesmo, amigos iniciarem suas vidas amorosas enquanto eu colava pôster dos Jonas Brothers na parede do meu quarto, e por um tempo, querendo me sentir parte do que minhas amigas viviam, eu até tentei fingir que gostava de alguém, mas anos depois entendi que aquilo se chamava 'achar bonitinho' e que nem sempre implica em estar interessada na pessoa, o que eu realmente nunca estive. Aos 15 finalmente me apaixonei pela primeira vez pela pessoa errada e ninguém sabe como eu sofri, deu numa merda sem fim. No máximo dois meses depois, de tanto meus amigos insistirem, acabei ficando com outra pessoa e apesar de ter sido a única lenda da paixão verdadeira que já vivi, com direito a anos, passei mais tempo sofrendo que sendo feliz, e infelizmente demorei muito pra entender que relacionamentos não são assim e que dependência é completamente diferente de amor. O que finalmente me leva aos dias atuais, em que como todo ser humano tenho meus momentos de carência, mas que finalmente aprendi que não preciso me desesperar por não sentir e me forçar a estar apaixonada, porque se começa assim é claro que vai terminar de uma maneira ruim. E tudo bem que atualmente eu tenho sim interesse em uma pessoa, mas é algo bem mais controlado, não me forcei a querer, não me joguei de cabeça, tô só aqui dando umas olhadinhas quando o moço passa, chamando pra bater uns papinhos e ficando encantadinha com a personalidade dele. É reciproco? Não faço a mínima ideia e não vejo motivo pra questionar isso, porque seria de certa forma forçar o outro a também querer, e o ponto aqui é querer porque sim, sem nenhuma razão concreta, e não porque eu questionei e a pessoa percebeu que se tentar pode dar em algo.

Uns dias atrás, conversando com uma profissional paga para me ouvir todas as semanas, fui questionada sobre o que enxergo para o meu futuro e percebi que tudo aqui dentro se tornou um grande ponto de interrogação, porque eu mesma me decepcionei com o que acho que vai acontecer, as únicas coisas que eu conseguia enxergar eram materiais, e isso é péssimo!



Só  me enxergo finalmente formada em alguma das duas áreas que quero atuar, morando em um apartamento com um cachorro, sentada no meu sofá com uma taça de vinho e vendo filminhos, o que gerou outra questão: por que eu não consigo ver alguém morando comigo? O que me levou a resposta: porque eu não quero casar. E por que eu não quero casar?




Não sei se você, pessoa que lê minhas baboseiras na internet, já teve a oportunidade de fazer terapia alguma vez, é um processo dolorido, a gente sempre acaba descobrindo a pessoa horrível que é, mas ainda assim vale mais a pena que pagar Netflix, e olha que eu amo Netflix; eis que a querida pessoa paga para me fazer pensar fora da caixinha, olhou friamente no fundo dos meus olhos e perguntou: "Tati, não tem um pouco de egoísmo nessa decisão?".



Não é fácil se assumir egoísta, ninguém diz isso em apresentações ou biografias de redes sociais, e foi assustador me ouvir dizer em voz alta que sim, tem muito egoísmo nisso, já que não me vejo abrindo mão de uma oportunidade de emprego porque quem eu me relaciono não concordou, não me vejo deixando de comprar algo porque meu cônjuge achou que nossas finanças não permitiam, não enxergo uma maneira de me unir a alguém sem precisar podar muita coisa minha, mas dessa reflexão surgiu outra: se eu me relaciono com alguém e preciso mais cortar meus desejos do que achar o concenso entre nós dois, eu estou com alguém que realmente merece casar comigo? Isso é mesmo egoísmo, racionalidade, ou qualquer outro adjetivo que deram para alguém não tão romântico assim?

Independente de qual for sua conclusão, por aqui ainda não encontrei nenhuma, mas de uma coisa eu sei: pode ser que eu divida esse momento com alguém, pode ser que não, mas lá na frente, a taça de vinho, o filme e o cachorro, vão sim existir, porque dos meus desejos, eu não abro mão.

*A Beatriz, do No Fundo Eu Sou Otimista, escreveu esse texto sobre procurar alguém que adicione felicidade, e não que seja a felicidade, e eu concordo com cada letrinha dele, leiam!
Independência não é eufemismo de egoísmo, no Sigamos Juntas, também para ler e pensar mais um pouco.


2 comentários:

  1. Me identifiquei bastante, principalmente com a parte em que você conta como suas amigas estava sempre apaixonadas e você, nada. Minhas amigas conseguem sair de um relacionamento para o outro em questão de dias e eu não. Demoro para deixar o cara entrar na minha vida, demoro a me conectar. Não gosto da ideia de abrir mão daquilo que sou ou daquilo que gosto por causa de outra pessoa. E isso é egoísmo? Pode até ser, mas acho que tem muito mais relação com autopreservação do que qualquer outra coisa. Já estive em relacionamentos (ok, poucos, mas ainda assim) e não estou com vontade de ficar sofrendo por quem não me merece. Então é isso: eu, meu cachorro, chocolate e Netflix até que o universo me faça crer no contrário. <3

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  2. Nem tinha pensado como a Robin e eu podemos ter muito em comum. Assim como você, eu via minha amigas se apaixonarem, ter namorados e eu ficava pensando em ir nas aulas de ballet, ler e assistir séries. Perguntavam de quem eu gostava, e a resposta era sempre sincera "ninguém". Me olhavam como se eu fosse mentirosa". Hahahahaha
    Acho que toda essa "despreocupação" foi boa, pois me apaixonei e casei... Tudo naturalmente.

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