14 junho 2020

Aquele em que eu falo (ainda mais) sobre literatura na internet.

Sou muito melhor escrevendo do que falando, e isso é um fato incontestável. Foi assim que há quase 7 anos (meu deus dia 21 de Junho esse blog faz 7 anos! Eu nem acredito que ele já é uma criança em idade de alfabetização), comecei a reclamar sobre a vida por aqui. No meio disso também falei sobre séries, filmes, e principalmente, sobre os livros, que mesmo quando ainda não eram muitos na lista das leituras feitas, eram a principal razão pra ser quem sou e fazer o que faço: escrever. 

Por causa deles esse blog existe, e por causa deles em 29 de Julho de 2018 eu iniciei o Projeto Rata de Biblioteca, com a intenção de mostrar que bibliotecas públicas são mais do que imaginamos e que tem muita coisa boa nelas -- e que apesar dos preços, e muitas vezes, dos influenciadores literários nos mostrarem o contrário, tem sim como ser leitor sem precisar gastar uma quantia de dinheiro que no nosso país, é um luxo. 

Foi também por causa deles que apesar da constante sensação de impotência e dos dias em que eu sinto que nada mais vai dar certo e que ninguém respeita a vida de ninguém (ou seja, o ano de 2020 resumido), encontrei um jeito de nessa quarentena me sentir menos sozinha: comecei a falar sobre livros no Youtube. Eu já disse que sou melhor escrevendo do que falando? Porque eu juro que cada vídeo que posto ali só prova ainda mais esse ponto. 

Pra acompanhar essa empolgação toda, criei um perfil literário no Instagram, o Tati Souvenirs. Dei esse nome porque encaro cada livro como uma viagem feita, e de cada um deles, trago comigo um souvenir. 
Além disso, esse ano a Mia me convidou pra fazer parte do Querido Clássico, projeto (que por enquanto) está no Instagram, onde falamos sobre literatura clássica e como ela pode ser acessível e interessante. 

Enfim, escrevi, escrevi, escrevi e não cheguei no ponto principal: esse post é um aviso e talvez um convite. Comecei a falar sobre livros no Youtube e deixei de lado as inseguranças e principalmente a vergonha das pessoas que me conhecem pessoalmente. Agora em Junho, mês do Orgulho LGBTQIA+, tenho publicado uma vez por semana dicas literárias que incluem essa minoria, seja através das personagens, seja por quem escreveu o livro (em alguns casos, os dois se aplicam).

 


Em breve o início de tudo isso (esse cantinho aqui) completa 7 anos e talvez essa seja a renovação dos meus votos de casamento com o Limonada. Ainda bem que um dia eu tive coragem de cadastrar esse endereço. 

04 junho 2020

Memória Muscular.

Ilustração por Anna Macht.
Ilustração por Anna Macht.


Acordo ás seis da manhã e sigo a rotina já tão bem incorporada, praticamente uma memória muscular: calço os chinelos, acaricio o cachorro, arrumo a cama, limpo o rosto, desço as escadas, preparo o café. É quando ligo a TV, transmitindo o jornal local, que a normalidade enfim se quebra, e a realidade me atinge com violência por tê-la ignorado durante esses poucos minutos. Como pude tentar esquecê-la? Como ouso?


O cheiro do café sendo passado toma a cozinha, enquanto o jornalista faz a mesma reclamação do dia anterior -- os índices de isolamento em São Paulo nunca são maiores que 49% --, e me pergunto se estou ou não tendo um déjà-vu. Nesse mesmo momento minha mãe aparece no cômodo, em seu uniforme azul que estampa a logo do supermercado, e meu coração parece esquecer seu ritmo quando um pensamento que já tive ontem, mas que dessa vez sei não ser mais um déjà-vu, me invade: em uma cidade cujas taxas de comprometimento com a quarentena são baixas, a mulher que considero ser toda a minha família precisa continuar saindo para nos sustentar. Sempre fico dividida entre o alívio de não estarmos passando dificuldades financeiras assim como muitos, e o desespero de vê-la indo trabalhar diariamente enquanto fico para trás.


Se em uma realidade paralela eu pudesse observar como seria não viver uma pandemia, me veria saindo de casa com minha mãe, deixando ração e água para o cachorro de olhar triste com nossa ida, entrando em transportes públicos sem me preocupar tanto com quantas pessoas estão ali unidas pelo atraso do serviço e em como nossas mãos tocam nas mesmas superfícies. Assistiria aulas, cumprimentaria colegas, almoçaria com amigos e em algum momento do dia respiraria fundo enquanto acompanhava a altura do prédio do Hospital São Paulo, com o corpo indo para trás, até ver seu topo, fechando um dos olhos no exato momento em que a luz solar o encontrasse, pensando em quantas pessoas fazem daquela sobreposição de tijolos um verdadeiro local de atendimento à saúde, de cura, de cuidado, de pesquisa e ciência, e em como seria quando a minha vez de trabalhar ali enfim chegasse.


Olho para o lado e minha mãe está se despedindo. Abro as janelas da sala enquanto a vejo fechar o portão e apesar de não estar olhando para cima, um raio de luz me atinge e involuntariamente tenho a mesma reação que teria caso a vida ainda seguisse em sua normalidade quando olhava para o topo do prédio: um olho aberto, outro fechado. Respiro fundo.


Todo o dia se passa com meu corpo em casa e minha mente acompanhando cada pessoa que precisa continuar trabalhando, se expondo, cedendo um pedaço seu. Reparo em coisas que antes não sabia: entre sete e oito horas da manhã pássaros entram no meu quintal e cantam, diariamente; das oito ás nove a vizinha estende sua roupa; das nove ás dez alguma outra casa liga a máquina de lavar e seu som reverbera pela quadra; das dez ao meio-dia carros passam, às vezes sirenes tocam e é sempre nesse espaço de tempo que sinto um pesar: não há nenhum hospital nas redondezas, e sei muito bem o que a sirene de uma ambulância tão próxima significa; ao meio-dia minha mãe manda uma mensagem, irá almoçar. Pergunto como ela está, como estão os funcionários, se os clientes respeitam as recomendações, se tem alguma dor, torcendo para que não tenha; ás treze desisto de tentar preencher a inquietação e me permito senti-la; ás quatorze a tristeza dá lugar a raiva, e sinto, sinto, sinto; ás quinze digo que retomei o controle e me ocupo de afazeres; ás dezesseis penso que mais aquele dia está perto de acabar; ás dezessete, lembro que minha mãe já foi liberada do serviço e me certifico de ter feito todas as tarefas na casa, esperando-a; ás dezoito ela chega com as orientações cravadas em sua própria pele, de tanto que as repeti: tira os sapatos, mercadorias da nossa janta para fora, eu as limpo, as guardo, ela toma banho, as roupas são lavadas pela máquina; ás dezenove minha fé se renova, estamos bem, estamos vivas, temos uma casa, roupas e ainda não encontramos o inimigo invisível que ataca toda a humanidade; ás vinte me sinto egoísta, muitos não estão bem, nem vivos, e se possuem casa e roupas, perderam o lar que tinham no outro. Como ouso tentar esquecê-los? Como posso?


Me deito para dormir desejando que o amanhã demore um pouco mais a chegar, mas o tempo tem seu próprio tempo, o relógio me acorda às seis e sigo a mesma memória muscular. Como posso tentar esquecer? Como ouso?

06 maio 2020

Tenho em mim todas as dores do mundo.

Em 2016, quando vi a professora de literatura do pré-vestibular se emocionar na frente de toda a sala lendo Drummond, lembro de ter pensado que aquele seria um dos momentos bonitos que grudam na nossa memória e não saem nunca mais. Estava certa. Meses depois, Os Ombros Suportam o Mundo se tornou meu poema favorito -- e para o qual eu volto de tempos em tempos e sinto que sou preenchida por. 

Quando meu pai foi embora, olhei pela janela da sala, o vi colocando as últimas coisas no carro e dando a partida. Quando tudo acabou fiquei em uma sala vazia, mas cheia de lágrimas. Peguei a vassoura e terminei de chorar enquanto limpava a poeira que o desmonte dos móveis deixou. Hoje em dia, se olho pela mesma janela, ainda sinto que preciso começar a varrer. 

Esse ano -- nos dias em que isolar-se ainda era opção, e de certa forma, diversão para um sábado à noite de descanso --, fiz minha primeira tatuagem. A planejei desde os 17 anos, mais ou menos. A nuvem com gotas de chuva caindo hoje me acompanha aonde quer que eu vá. Ela aconteceu porque um dia em algum ano entre 2010 e 2012, descobri a música Stop Crying Your Heart Out, do Oasis, enquanto lia alguma fanfic. Achei a música bonita e baixei, alheia ao sentimento que ela possuiria pra mim mais tarde. Além disso, a nuvem aconteceu porque já fui alguém muito pessimista, e a visão da água que sai pra tudo clarear me lembra que às vezes é preciso deixar ir. Escapar. Sair. Cair. Esvaziar. 

Segurei tanta coisa nos últimos quatro anos. 

Hoje doeu. 

Meus ombros suportaram demais. 


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

E não tivesse mais irmandade com as coisas

Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua

A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada

De dentro da minha cabeça,

E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Trecho do poema Tabacaria, de Fernando Pessoa. 


© Limonada.
Maira Gall