01 dezembro 2018

I lost myself again, but I remember you.



Em um primeiro momento estou voltando de um comércio do bairro embaixo da chuva, sem sombrinha, porque minha casa é perto e porque a janela tinha ficado aberta. Enquanto eu corria a chuva me deixava sem ar e a água pegava cada vez mais o espaço que restava entre meu tênis e meu pé, e ao mesmo tempo em que era gostoso sentir cada parte minha molhada, era ruim tentar lutar contra um tipo de natureza para a qual o corpo humano não é totalmente adaptado. Quando entrei em casa, depois de fechar a janela, eu poderia ter feito muitas coisas. Poderia ter tirado os tênis, as roupas encharcadas. Poderia ter tomado um banho quente. Mas a primeira coisa na qual pensei, e a primeira coisa que fiz, foi pegar meu celular e tirar uma foto do meu estado para te mandar com alguma piada ruim, que eram as únicas que nós dois sempre ríamos. Por algum motivo que na época nos levou a isso, mas que hoje sei que não possuía importância nenhuma já que sequer lembro o que era, quando abri nossas mensagens não pude enviar a foto, porque estávamos brigando. Você ficou sem falar comigo por dias, queria resolver pessoalmente. Eu queria te ver o quanto antes. O dinheiro não permitiu que fosse logo. Nós nunca nos vimos.

Era domingo e a vontade de dividir coisas com você era maior que qualquer orgulho. Da minha parte, pelo menos. Se eu soubesse o que aconteceria, se soubesse ao que aquela conversa nos levaria, jamais teria falado nada. Você tinha um ponto, eu tinha outro, se juntássemos os dois seriam dois pontos, que na gramática podem ser usados para introduzir uma explicação, o que nos levaria a um acordo, mas o seu ponto continuou sendo só seu, assim como o meu nunca deixou de me pertencer, e em segundos a mensagem que perguntava se alguma coisa minha estava na sua casa pra ser devolvida chegou. Eu estava sentada na cama com as luzes apagadas e o celular na mão, a tela dele se apagou e eu não vi mais nada. 

No segundo momento eu estou te devolvendo seu violão e não consigo te olhar. Tudo o que eu vejo são seus pés e suas mãos. Você vai embora, eu choro na frente de pessoas que não sabem nada sobre nós. Foi a última vez que não te olhei.

Em um terceiro momento muitos meses já se passaram e muito já foi dito, mas ainda assim eu queria falar mais. Não falo. Te pergunto se deixo a mochila na portaria. "Não faço questão". Por quanto tempo ainda vou me perguntar o que essa frase envolve é algo que não posso responder. Quando o carro entra no seu bairro não sei diferenciar o que é meu batimento cardíaco do que é a sensação de frio na barriga. Eu entro na portaria. Digo o bloco, o apartamento e meu nome. A moça me chama de Tati com um som que parece uma lamentação. Me pergunto se está escrito no meu olhar que aquilo é um fim. Me viro e fecho o portão. Não te vi. Por todas as ruas e todos os pontos de ônibus que o carro passa, procuro te encontrar. Não te vejo. Eu nunca mais vou te ver.

O momento seguinte é entre todos os anteriores. Eu estou na Paulista sozinha, resolvendo alguma coisa, e eu desço na estação Brigadeiro, a mesma com a rede de fast-food que comemos juntos na área externa uma vez. No caminho de volta passo em muitos pontos da avenida e em todos eles eu posso te enxergar. Todos eles estão no passado. Eu nunca mais vou te ver.

Em Janeiro de 2017 nós nos vimos. E naquele dia do passado sempre vai existir uma versão minha encolhendo os braços de uma maneira estranha quando você me encarou por muito tempo depois de algo que eu disse pro nosso grupo de amigos; uma versão nossa sentados lado a lado dizendo que a carteira é como um órgão fora do corpo; uma versão nossa que seria o inicio pra tudo que fomos.

Não somos mais.

21 novembro 2018

O Cirurgião | Rata de Biblioteca.


Pensar em literatura policial escrita por uma mulher é primordialmente lembrar de Agatha Christie. No entanto, se por definição Thriller policial é todo livro cujo personagem principal desvenda crimes, Tess Gerritsen pode muito bem ser um dos principais nomes femininos relacionados à categoria. 

O Cirurgião é o primeiro livro da série de Thriller policiais cujos crimes são solucionados pela detetive Jane Rizzoli. O livro que inicia seus casos é centrado na médica Catherine Cordell, mulher que apesar de bem sucedida, vive dividida apenas entre seu apartamento e o hospital, sem manter qualquer tipo de laços afetivos com outras pessoas, por uma razão que só ao longo dos capítulos é esclarecida. Na mesma cidade em que vive a personagem, duas mulheres são assassinadas por um mesmo modus operandi, levando Rizzoli à busca pelo assassino em comum aos casos -- que com o passar do tempo não se restringem apenas a esses dois.

Se por um lado a médica Cordell possui prestígio em seu local de trabalho, na Delegacia de Boston a detetive Jane Rizzoli sobrevive em um ambiente hostil, em que o trabalho feminino é constantemente diminuído em meio a tantos homens em diferentes posições. O livro é fiel ao mostrar o impacto pessoal que tal situação causa em Jane, além de torná-la uma personagem com mais nuances ao representar a dificuldade vivida por ela com sua família, que não apoia sua profissão "masculina" e continuamente questiona o motivo de sua opção. Por tal motivo, ao longo do caso, o foco narrativo que leva ao solucionamento dos crimes é mais voltado ao detetive Thomas Moore, parceiro de Jane e um dos poucos homens dentro da delegacia que a respeita e incentiva, sendo este o ponto de desenvolvimento para a carreira da personagem ao longo da série.

Em um primeiro contato com a obra seu nome parece ter relação com a profissão de Catherine Cordell, no entanto, ao longo do suspense as impressões tornam-se outras: as vítimas dos repetidos assassinatos de localidade próxima são operadas cirurgicamente antes de suas mortes. Seria Catherine a responsável pelos assassinatos ou há algo mais envolvido? Só mesmo lendo para saber.

A trama além de envolvente é imprevisível, sendo minha única reclamação relacionada à editora Saraiva, responsável por essa edição de bolso que encontrei na biblioteca, que apesar de possuir dois livros em um no estilo vira-vira (sendo o outro "O Pecador", terceiro da série de Rizzoli), deixa a desejar com relação à gramática e um melhor cuidado com a capa da obra.

*:・゚✧*:・゚✧ POR QUE LER UM suspense policial? *:・゚✧*:・゚✧


Se você tem estômago para lidar com descrições de assassinatos, os suspenses policiais são ótimas pedidas para quem procura uma leitura interessante o suficiente para ser feita de maneira rápida. Além disso, no caso da autora Tess Gerritsen, sua anterior experiência profissional faz da sua escrita ainda mais marcante: Tess abandonou a área da medicina para seguir sua paixão pelos livros. 

*:・゚✧*:・゚✧ POR QUE NÃO LER "O Cirurgião"? *:・゚✧*:・゚✧


Não vejo motivos para não lê-lo. Acredito que as únicas razões aceitáveis seriam não gostar de Thriller ou não estar com disponibilidade para continuar a série.

  • Pra quem é das séries: a série de livros virou série de TV! A responsável pela adaptação "Rizzoli & Isles" foi a TNT, deixando-a no ar ao longo de sete temporadas (2010-2016). A personagem Isles não aparece no livro O Cirurgião, mas dá suas caras em outras obras da série como médica legista.
  • Pra quem quer ler mais: apesar dessa edição que usei ser da Saraiva, O Cirurgião é publicado no Brasil pela Record, assim como os outros livros da série, sendo eles, em ordem: O Aprendiz, O Pecador, Dublê de Corpo, Desaparecidas, O Clube Mefisto e Relíquias.

Em um quote:

“Moore colocou o artigo de lado e ficou sentado ali, pensando no quanto primeiras impressões podiam ser equivocadas. Como a dor podia tão facilmente ser mascarada por um sorriso, por um queixo empinado.”
                                                      




15 novembro 2018

Be bostra as ibagens: Outubro de 2018.

Outubro foi um mês de muita expectativa por aqui. Coisas aconteceram -- porque uma hora ou outra elas acontecem --, e eu me vi sem saber muito bem como continuar caminhando, era como se eu fosse um cartoon e meu ilustrador tivesse esquecido de terminar o cenário e de incluir outros personagens, me deixando sozinha em uma folha em branco. 

Não tenho muitos amigos, mas esse em especial, notou que eu estava me afundando um pouquinho e ofereceu uma mãozinha pra me puxar: um convite pra ir com ele para Curitiba prestar o vestibular da federal. Depois de muito pensar se devia, se queria, se podia, se não seria muito incomodo, juntei a cara e a coragem e fui. Sendo assim, esse post é quase um patrocínio desse meu amigo, a melhor pessoa do universo todinho, que inclusive descobriu meu blog sozinho e eu tive que lidar com a vergonha da minha própria escrita. 

Fui porque a concorrência do vestibular é menor, fui porque ficar em casa remoendo meu passado não ia me levar à lugar algum, e assim passei menos de um dia fora de São Paulo, mas vivi muito mais do que viveria em uma semana por aqui. 

17 horas em Curitiba.



Fomos em um ônibus que partiu de São Paulo no início da madrugada do domingo. Na foto da esquerda estávamos na parada, na metade do caminho, quando meu amigo, cujo nome será preservado, decidiu que precisava tentar pegar um bicho de pelúcia na máquina. Os dois reais dele nunca voltaram, mas temos essa foto que só refletiu do nosso pescoço pra baixo -- e ainda bem, porque os rostos estavam em um estado que não era o mais bonito. Chegamos no Paraná um pouquinho antes das sete da manhã e enquanto ele se trocava no banheiro da rodoviária (tendência, tá meninas?), fiquei o esperando sentada, e tirei essa foto da direita só pra provar que um dia já pisei meus pés em outro Estado. 

Depois disso tomamos café e antes mesmo das oito da manhã, em pleno domingo, decidimos nos aventurar pelas terras curitibanas. Andamos um pouco e vendo que as ruas não deixariam de estar desertas tão cedo -- e que convenhamos, nós não fazíamos a mínima ideia do que estávamos fazendo andando em um local que a) eu nunca tinha estado; b) ele já tinha visitado, mas também pra prestar um vestibular e não chegou a conhecer tanto assim --, paramos em um campus da UFPR, o mais próximo que o Google Maps nos mostrou. Não era o campus mais bonito do mundo (desculpa, UFPR), mas essas linhas formadas pelos andares (foto abaixo, do lado direito) me conquistaram. De lá fomos para o Parque Passeio Público, que de acordo com o Google foi o primeiro da cidade, e gente, que parque maravilhoso! A primeira vista o espaço parece pequeno, mas quando você entra tem coisa que não acaba mais. Ao longo do post vou sinalizando quando as fotos usadas forem relacionadas a ele, mas essa aí embaixo, do lado esquerdo, é de um imóvel na frente dele (por isso as grades na frente, hehe) que me chamou a atenção por ser mais antigo.

O parque é muito diverso, tem espaço infantil, tem área pra caminhar, tem estátuas históricas, pontes, e muuuuitas aves. Pelo que eu entendi da minha pesquisa no Google, já foi um zoológico, e hoje só abriga esses animais de pequeno porte. Nas duas fotos abaixo: uma das muitas vistas possíveis para o lago, e nossos pés de turistas.



Tem aves de muitas espécies diferentes (Arara azul!!! Tucano!!!), e todas são muito bem cuidadas em viveiros como esses aí embaixo. Quando estávamos lá deviam ser no máximo nove da manhã, e já tinha funcionário limpando e dando comida para os bichinhos.


Além desses viveiros, tinham um pássaros brancos enormes que estavam soltos e lotaram uma árvore -- filmei a gritaria toda do bando, mas pra postar vídeo no Blogger é horrível -- e esse das duas fotos abaixo, que tinha um "rabinho de cavalo" muito meigo e se afastava cada vez que eu me aproximava mais.

Tirar fotos minhas é algo que me exige muito preparo emocional. Eu realmente não consigo me sentir bem com a ideia de me expor pra câmera, então meu amigo começou a tirar fotos escondidas ao invés de ficar me obrigando a posar.


Pareço ou não pareço A Dora Aventureira com essa mochila enorme nas costas? 


Emo e gótica aproveitando o céu nublado.

De lá fizemos o que todo turista em Curitiba que se preze faz: fomos para o Jardim Botânico. Confesso que quando entramos nele até pensei um "ué?", porque no início é só mato e ladeira, mas depois desses arcos aí, é só alegria. Ô lugar bonito, tá de parabéns Curitiba (não por tudo, não se enche de orgulho não). 


Só conseguia lembrar de Alice no País das Maravilhas com o jardim de frente para a famosa estufa. 


O tempo quase não estava fechado, né?


Daqui pra frente é só foto da estufa mesmo. Vocês me perdoem, mas eu gostei muito da ~arquitetura~ dela e acabei me excedendo nas fotos (e olha que ainda deixei MUITA coisa de fora do post).









A visão contrária do comum, no caso, o jardim visto de dentro da estufa:

Antes de realmente conhecê-lo, eu achava que o Jardim Botânico era só a estufa, já que costuma ser ela o centro das fotos por aí, mas na realidade ele possuí uma área aberta muito grande, com pessoas sentadas na grama e crianças correndo, uma parte com bambus, outra com muitas plantas diferentes, cuja proposta é conhecer cheiros e texturas novas, e esse da foto seguinte, uma cabana que me deixou com a sensação de estar em um filme da sessão da tarde em que minha família viajou pra sua própria cabana no lago durante as férias. Dentro dela são vendidas plantas e quadros.


Por último -- achei que nunca mais ia acabar de digitar isso --, essa "coletânea" de caminhos:


Na esquerda, a ponte do Parque do Passeio Público, sob o lago. No meio, esse cercado (?), com o casal que nunca vi, mas agradeço por ter deixado minha foto mais humana, e no lado direito, essa pontezinha de algum dos muitos lados do Jardim Botânico. 

Depois do passeio no Jardim Botânico fomos almoçar no shopping -- que antes era a estação de trem da cidade -- e de lá fomos prestar o vestibular. Às 23h40min já estávamos embarcando no ônibus pra voltar para São Paulo, mas sem dúvida essas dezessete horas sem casa valeram mais que a maior parte do ano. 

Nunca na história do Be Bostra as Ibagens um mês teve tantas fotos, e se eu fosse postar todas vocês provavelmente não aguentariam (ainda tem alguém aí? hehe). Até mês que vem, que com certeza não vai ter nem cinco fotos. 
© Limonada.
Maira Gall