16 setembro 2020

Só acontece comigo #86

Minha faculdade virou EAD por causa da pandemia. Não importava se meu curso tem muito conteúdo prático, nem se o mundo está um caos: as aulas iriam retornar online e ponto. Por um lado é bom, poupa dinheiro, sono, tempo e psicológico. Só não impede que eu passe minhas vergonhas de sempre. 

A aula era de uma liga acadêmica. Eu não estava conseguindo conectar meu microfone, então fiquei um tempo tentando resolver a questão, um mau contato entre ele e minha CPU. A aula se seguiu e o problema foi resolvido. 

Em um determinado momento, minha mãe, muito curiosa, parou do meu lado e expressou suas opiniões sobre as pessoas que estavam com as câmeras ligadas:

— Olha a cara daquele ali, ele tá muito feliz!
—  É ele o orientador da minha pesquisa, é muito bonzinho. 

E aí eu mexi meu mouse.
E descobri que meu microfone estava ligado.
E aberto.
E funcionando muito bem. 


Podia ser pior, né? Eu poderia ter falado mal dele...


11 setembro 2020

A Million Little Things: a importância de se falar sobre suicídio de forma responsável na TV



A Million Little Things, série que no Brasil está inclusa no serviço de assinatura da GloboPlay, é uma produção da ABC Studios de 2018, criada por DJ Nash. O enredo, desde o primeiro episódio, gira em torno de um tema que mesmo com as constantes tentativas de torná-lo mais discutido pela população, ainda é camuflado por medos e pré-conceitos: o suicídio. 

Atualmente na segunda temporada, com renovação para a terceira já confirmada, a série de drama leve, além de tocar onde quase ninguém tem coragem, consegue o fazer de forma muito responsável. Nela, conhecemos um grupo de amigos que se uniu por acaso, e que agora precisa lidar com a grande perda de um dos seus membros após sua morte inesperada. Além disso, cada personagem tem seus problemas pessoais aprofundados ao longo dos episódios, o que torna a série muito real.

Se algumas produções que retratam o tema costumam falhar ao colocá-lo como única possibilidade de melhora para quem está em sofrimento, A Million Little Things não têm o mesmo problema. Enquanto o primeiro episódio se inicia com a possibilidade de um dos protagonistas optar pelo suicídio, seu término, com a consumação do ato por outro personagem, leva o primeiro a não realiza-lo ao receber a noticia, e a, por fim, comunicar as pessoas próximas sobre como tem se sentido, e, no decorrer da série, buscar ajuda adequada de profissionais. 

Frequentemente comparada a This is Us, da NBC, pela grande presença de carga emocional, a série da ABC é tão boa quanto sua concorrente, assumindo o papel de conscientizadora sobre assuntos não retratados na outra. Alguns exemplos disso: 


A luta contra o câncer. 


Maggie Bloom, interpretada pela atriz Alisson Miller, é incluída no enredo ao conhecer Gary Mendez (James Roday Rodriguez), em um grupo de apoio a pacientes em remissão do câncer de mama. Em um primeiro momento a personagem, que posteriormente torna-se par romântico de Gary, tem com ele um atrito, por não entender a razão para um homem estar naquele grupo, sentindo-se desrespeitada. É quando Gary esclarece: homens também possuem câncer de mama, e ele, assim como todas as mulheres presentes, está em remissão do seu. Ao retratar a doença, a série não torna seus personagens apenas pacientes de um grave diagnóstico, demonstrando seus medos e desistências por ela influenciados, mas também como continuam a vida apesar dela, abrindo-se a novas oportunidades de emprego, amizades e relacionamentos amorosos. Ponto importante, tanto para aqueles em tratamento ou em remissão, a série também pontua de forma excelente a importância de um grupo de apoio, seja ele qual for, para aqueles que se encontram abalados com a notícia. 


A depressão e a masculinidade tóxica. 


Rome Howard (Romany Malco) é um homem negro incapaz de falar sobre seus sentimentos e sua depressão. A série investe no tema abordando sua infância e relação com o pai, que desde cedo o incentivou a pressupor que a masculinidade envolve, entre muitas outras coisas, a suspensão de suas emoções, e que por seu histórico de trabalhador, vê na depressão uma desculpa de pessoas pouco motivadas ou, como costuma dizer, "uma doença que brancos ricos possuem". Buscar ajuda para o que sente, falar a respeito com sua esposa e, explicar para seu próprio pai como vem se sentindo, são os principais assuntos aliados ao personagem. Além disso, Rome continuamente aborda o racismo e a dificuldade do homem preto em expressar-se dentro de uma sociedade que mal o aceita.


A retratação da bebida alcoólica como um vício. 


Eddie Salive, personagem do ator David Giuntoli, é um músico afastado dos palcos após seu história de problemas com o álcool. Sóbrio, já casado e com um filho pequeno, Eddie está anos a frente de seu tratamento, e mesmo assim, constantemente apresenta a dificuldade de manter-se longe do vício, tão presente em comemorações e tão fácil de tornar-se um escape para situações dolorosas. Assim como com Maggie e Gary, o grupo de amigos é uma ótima fonte de apoio, sempre respeitando a presença de Eddie ao não incluir bebidas em suas reuniões e ao mesmo tempo, observando-o cuidadosamente para que não volte ao antigo hábito.


A mulher como chefe de família. 


Casada com Eddie, Katherine  Saville (Grace Park) é a principal responsável pelo sustento da família. Sua personagem, encarada como uma mulher forte e emocionalmente fechada no inicio da série, é a retratação fiel da mulher que trabalha, cuida do filho, da casa, e sofre com o distanciamento do marido que não a entende por completo. 


A maternidade aliada a perda do cônjuge. 


Delilah Dixon (Stephanie Szostak), é a viúva do já citado personagem que falece no primeiro episódio (mas que está sempre incluso na série nas memórias encenadas). Com dois filhos adolescentes, Delilah precisa lidar com a perda do marido e a confortar os filhos ao mesmo tempo em que lida com sua própria dor. Além disso, o enredo explora Delilah como, acima de tais características, uma mulher ainda em idade ativa, com desejos e sonhos a realizar. 


A rede de apoio  — que também precisa dele. 



Regina Howard, na vida real, Christina Moses, interpreta a esposa de Rome. É ela sua principal fonte de apoio ao longo da problemática que o envolve, mas é também dela o papel de demonstrar que ser uma rede apoio não significa não precisar de uma. 

Nas duas temporadas já gravadas são muitos os outros bons pontos levantados pela série, e citá-los aqui seria tornar a experiência de assisti-la menos enriquecedora. A Million Little Things é atual, e ao mesmo tempo que dramática por demonstrar a vida como ela realmente é, leve e bem-humorada em não resumi-la a apenas isso. 

25 agosto 2020

Apresentando o Querido Clássico

Encontrei aqui. 


Em Junho comentei aqui no blog sobre como estava aproveitando a quarentena para falar ainda mais sobre literatura na internet, seja através do Projeto Rata de Biblioteca, com as resenhas que faço aqui e a divulgação (que ando falhando miseravelmente, por sinal), no Instagram @rbiblioteca, pelo canal literário no Youtube (que não consigo gravar nada há mais de um mês por vergonha, hehe), ou pelo Instagram literário. Nesse texto também falei sobre o Querido Clássico, projeto da Mia, que me convidou a escrever nele sobre literatura, e que naquele momento, ainda era voltado a um perfil no Instagram

Um plano levou ao outro e em Julho, o site do Querido Clássico foi ao ar. É muito gostoso ver a resposta que estamos recebendo com ele, o crescimento nas nossas redes sociais e como cada editora consegue dar seu toque especial aos clássicos da literatura, do cinema e das artes. Nos textos que já publiquei por lá, sempre tento traçar o paralelo entre o livro clássico, por mais antigo que seja, com nossa atualidade, para desmistificar o medo que muitos possuem de lê-los (porque todo mundo enraizou que são difíceis, e sim, existem os que levam tempo pra ler, mas nem todos são esse monstro de sete cabeças que imaginamos), e demonstrar o poder que a literatura possui em criticar de forma construtiva a natureza humana, e como, em uma sociedade que presta atenção a ela, pode servir como um grande guia para diversas questões. Para quem está prestando as provas do vestibular, também temos uma categoria em que falamos sobre os clássicos das leituras obrigatórias, explicando sobre eles e seus autores(as), a fim de, quem sabe, auxiliar nos estudos. 

O objetivo do Querido Clássico é, em linhas gerais, muito semelhante ao do Projeto Rata de Biblioteca: desmistificar um pré-conceito e torná-lo acessível e divertido. Acho que é por isso que acredito tanto em ambos e fico tão feliz de vê-lo tomar forma. Por enquanto, vou deixar aqui os links do que já publiquei por lá, e futuramente, todos eles estão salvos na aba "Sobre" aqui do blog, para quem se interessar. 

Admirável Mundo Novo e o conhece a ti mesmo. 

Edgar Allan Poe já sabia de tudo: a pandemia da COVID-19 e A Máscara da Morte Rubra.  

Mayombe, de Pepetela. 

Napoleão e o Espectro, um conto de Charlotte Brontë. 



© Limonada
Maira Gall