01 setembro 2019

Só acontece comigo #80

Faculdades possuem estudantes jovens. Jovens gostam de mandar confidências em páginas nomeadas de spotted. Logo, faculdades com jovens possuem spotted

Uma colega da faculdade, muito tímida, avistou um menino cuja aparência liberou seus hormônios, e por não possuir uma conta no Facebook (ou ter mentido dizendo que não tinha), me pediu para entrar na página destinada a segredos e comentários degradantes em busca do dito cujo. Ela me enviou a mensagem que eu deveria escrever. Eu escrevi.

Essa página em questão funciona da seguinte forma: você entra em um link que te redireciona para um formulário do Google, onde você preenche seu campus e seu segredo. Eu sabia disso. Todos sabem disso. 

Mandei o segredo.

Alguns minutos depois meu celular começa a pipocar. "O QUE FOI AGORA NESSA MERDA QUE NUNCA TENHO PAZ", pensei eu. Eram prints. Do segredo que eu enviei. Pedindo o nome de um moço que eu sequer vi quem era. Estava anônimo, o tal segredo? Não, não estava, porque eu tive a capacidade de postar a mensagem no mural da página. 


Dentro de três minutos a postagem estava apagada, mas um total de quatro pessoas vieram me avisar do ocorrido. Se quatro viram, QUANTAS MAIS NÃO DISSERAM NADA?

Se você se esforçar direitinho, mesmo que isso tenha acontecido há meses atrás, ainda é possível ouvir meus gritos de vergonha ecoando pelo Brasil. 

09 julho 2019

A folha em branco me era um dedo apontado.

Comecei esse mesmo texto de um jeito completamente diferente durante essa tarde. Parei na metade porque o achei ressentido demais, cheio de dedos apontados que não significavam nada além do que um dedo apontado sempre é: eu mostro o que me incomoda ali, e esqueço de notar o quanto daquilo existe aqui. Então é com o dedo apontado para mim que vou reescrevê-lo.

Sempre gostei de folhas (virtuais ou reais) em branco. Pautadas, sem pauta, decoradas ou não, a possibilidade de um espaço vago pronto para ser preenchido com qualquer coisa que eu escolhesse sempre me encantou. É por isso que tenho esse blog, por isso que já tive tantos outros, e por isso que no decorrer dos últimos dois anos, quando muitos dos blogs pessoais foram desativados, eu permaneci. Não importava a comunidade, importava o meu bem-estar individual, e escrever, afinal de contas, sempre foi sobre isso: é legal ter quem leia, mas todo o processo é mais meu que do outro.

No inicio desse ano, como comentei aqui, entrei na faculdade, mais especificamente em um curso de ciências da saúde. Foi quando minha relação com a escrita (essa que exponho na internet com a única pretensão de ouvir alguém dizer que entende, e que vai passar) desandou um pouco, não só -- muito, na verdade --, pelo tempo que o curso me toma, mas também por sentir que a minha carteirinha de "escritora de blogs não levados a sério nas horas vagas" pudesse ser tirada de mim. Eu não me encaixava mais tão dentro do que a maioria das autoras de blogs com formato semelhante ao meu eram. Eu não estava em um curso das humanas, da comunicação. Não me via tão refletida na Rory Gilmore no meu caminho acadêmico, mas as semelhanças com a Paris Geller eram altas. As músicas novas de tal cantora pop passaram despercebidas por mim, mas eu era a única surtando com a volta dos Jonas Brothers. Eu tinha muito a falar sobre a vivência em um campus todo da área da saúde, sobre todos os dias sair da periferia de São Paulo e ir estudar na universidade pública lotada de gente que não vive entre esses dois lados tão diferentes de uma mesma cidade, sobre sair do ensino médio na escola pública e só agora entender realmente o quanto tudo aquilo é errado e como eu queria poder ajudar cada um que entende isso e que quer mudar. Meus personagens preferidos não eram mais sempre os mesmos que os exaltados no mundo virtual dos blogs, as músicas, os enredos, cada caminho dado que parecia ser essencial para se poder escrever algo por aqui, tudo estava diferente. 

Volto a virar o dedo pra mim. Quem me disse que eu precisava estar em sintonia com outras pessoas, de outros blogs? Quando me disseram que só valia a pena se eu gostasse das mesmas coisas? É claro que ter assuntos em comum sempre melhora a interação, mas existem tantas outras pessoas com assuntos diferentes que podem me fazer companhia. 

Abri minha folha em branco, voltei a escrever. 


02 junho 2019

Só acontece comigo #79

Vocês sentiram falta dos posts sobre o transporte público? Se sim, é um dia de sorte, porque eu voltei.






Era um domingo, e até aquele dia, se me perguntassem o que pode dar errado em um domingo, eu diria que nada. Às 18 horas saí da casa do meu namorado, na cidade vizinha. O Estado de São Paulo é um lugar muito doido, porque quando eu falo cidade vizinha, sempre penso na tristeza que é não ter um carro: se eu tivesse um, levaria trinta minutos, no máximo, da minha casa a dele, mas como não tenho, perco duas horas em dois ônibus e um trem. Como já aceitei essa demora entre uma cidade e outra, nunca me dei o trabalho de decorar a linha de ônibus que preciso pegar na cidade dele; se ele me colocar em um foguete pra lua, eu só aceito. Ele me disse pra entrar no ônibus que estava vindo, e eu entrei.

Logo que sentei pensei em pegar meu celular para ir revisando a matéria da prova que teria naquela mesma semana, mas o motorista estava conversando muito alto com outro passageiro e de qualquer forma eu não conseguiria me concentrar. Então fiquei ali, olhando pro nada e prestando atenção na conversa -- conversa essa que era sobre o atual presidente e como o país é conservador, e não socialista como o lula molusco e seu partido tentaram fazer por tantos anos, e ainda bem que o atual presidente é quem é etc. etc. etc --, enquanto sentia que a qualquer momento eu iria entrar em combustão de tanta raiva. 

Papo vai, papo vem, o tal passageiro desceu e enfim o motorista se calou. Mesmo assim, não peguei o celular porque tenho estimado mais ou menos o tempo que passo dentro do ônibus até o trem, e pelas minhas contas o destino estava por perto. Ele realmente estava, mas veio em forma de uma piada, da mais sem graça. 

Conforme algumas pessoas desceram, um banco na janela ficou vago, e como eu estava desconfortável em um próximo do corredor, me mudei pra lá. Mais pessoas desceram, eu continuei lá. Sobraram eu e mais quatro pessoas, mas eu ainda esperava pelo trem.







Só que é como dizem: a vida é trem bala, irmão.

E COM CERTEZA VAI TE ACERTAR E TE ARRASTAR PELOS TRILHOS.

As quatro pessoas que ainda estavam no ônibus desceram. Elas me olharam. Eu olhei pra elas com meu melhor olhar de Marina Joyce pedindo help, mas elas não notaram. 

O motorista apagou as luzes do ônibus. Deu partida. Assobiou. 

Eu me caguei de forma não literal, mas foi quase.

Olhava pela janela e sabia que estava bem longe do trem, eu sequer sabia que lugar era aquele. No caminho só via casas e igrejas evangélicas, então comecei a pensar em qual delas eu poderia entrar, me fingir de enviada por Deus e pedir pelo amor D'ele pra que alguém me levasse pra casa porque eu estava perdida. Enquanto isso, pra minha sorte, o motorista minion começou a cantar louvores, DETALHE: ENQUANTO XINGAVA TODOS OS OUTROS MOTORISTAS.

Eu não sabia se eu ia morrer, ser sequestrada, se me jogava do ônibus em movimento, se levantava e tirava as mãos do motorista do volante, eu tava DESESPERADA PORQUE IA MORRER COM UM MOTORISTA SURTADO QUE XINGAVA E LOUVAVA À DEUS AO MESMO TEMPO.

Peguei meu celular, porque se fosse pra morrer eu pelo menos avisaria a polícia. 

Mais de 50 chamadas perdidas. Um SMS da criatura que eu namoro dizendo "PELO AMOR DE DEUS DESCE DESSE ÔNIBUS!".

Eu levantei. No meio da escuridão. O motorista amando à Deus e xingando a mãe do motorista ao lado. Me encostei na catraca.

-- Moço...
-- AI QUE SUSTO CARAMBA! -- me olha pelo retrovisor -- O QUE É QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AQUI? NÃO ERA PRA VOCÊ ESTAR AQUI!
-- Eu vou pro trem...
-- ESSE ÔNIBUS NÃO VAI PRO TREM NÃO!

Meu celular toca, eu atendo:

-- Você me colocou no ônibus errado, né?
-- Aham.

***

O motorista me deixou em frente a um ponto -- que coincidentemente, é a faculdade do meu namorado --, e o dito cujo já estava me esperando ali por perto de carro com um conhecido. Me buscaram e me trouxeram pra casa sã e salva, mas com o psicológico permanentemente abalado. 

Algumas pessoas tem medo de palhaços, outras de pombas, eu tenho de motoristas de ônibus. 
© Limonada.
Maira Gall