02 fevereiro 2019

Projeto Rata de Biblioteca: a influência das bibliotecas na formação de novos leitores.


Certo dia, ao comentar no Instagram do Projeto Rata de Biblioteca (@rbiblioteca) a importância de conhecer e ocupar os espaços das bibliotecas públicas, a Natália, do blog Lapsos, sugeriu a criação de um post colaborativo que mostrasse o quanto esses locais podem incentivar o hábito da leitura para aqueles que não possuem condições de comprar livros com frequência, além de proporem atividades culturais e infraestrutura adequada para quem precisa estudar. Comentei sobre a ideia no meu Twitter e de cara recebi mais duas pessoas dispostas a conversar comigo sobre as bibliotecas que frequentam/frequentaram e como elas foram essenciais para transformá-las em leitoras, e foi assim que o IBGT (Instituto Brasileiro de Geografia da Tatiane) voltou a ser acionado. Espero que gostem da conversa, e que ela sirva de incentivo para não abandonarmos os livros que estão disponíveis para todos, em uma época em que o conhecimento e a informação verídica se fazem tão necessários.

Carolina, 20 anos -- Blog Krahe Lake.


Como foi/é sua a experiência com as bibliotecas? De que forma ela te mudou como leitora? Se lembra de como a conheceu?

Moro em frente à biblioteca que ''me criou'', literalmente só preciso atravessar a rua pra chegar nela, e a conheci graças a minha mãe, que me levou lá quando eu ainda era pequeníssima e fez um cadastro pra mim. Desde então, ela é um ponto de referência na minha vida e não há um mês sequer em que eu não a visite. Hoje sou cadastrada em outra biblio, mas descobri minha paixão pela leitura graças à primeira e os livros estão fácil no top 5 das melhores coisas do meu mundo, eles tem um papel significativo na formação da pessoa que sou hoje, então posso dizer que eu não seria ''eu'' se não fosse por ela. Nem consigo precisar muito bem como a biblioteca/os livros me ''mudaram'' porque já nem lembro mais de como era a Carolina antes deles. :)

Lembra de até 3 livros importantes pra você que foram emprestados delas? Por que foram importantes?

Como comprei pouquíssimos livros ao longo da vida (só em 2018 eu passei a ser uma pessoa assalariada, amém), quase tudo o que li é proveniente dessa biblio de que falei, e três livros muito importantes pra mim encontrados nela são:

1- O Jogo do Anjo, que me apresentou ao meu autor favorito da vida, Carlos Ruiz Zafón, que pra mim é a referência suprema da literatura de boa qualidade, criador de livros que eu sempre digo que levaria pro espaço se só tivesse uma chance de mostrar aos aliens o que é literatura. “A justiça é uma questão de perspectiva, não um valor universal.”

2- O Nome do Vento, do Patrick Rothfuss, o primeiro livro da minha trilogia/saga favorita da vida (infelizmente ainda inacabada), A Crônica do Matador do Rei, um calhamaço que eu virei noites lendo e que traz o melhor do que a literatura e a fantasia podem oferecer em termos de entretenimento puro e simples. ''Somos mais do que as partes que nos formam.''

3- Toda Poesia, do Paulo Leminski, o livro de 2018 que fez com que eu me apaixonasse de vez por poesia, depois de uma vida torcendo um pouquinho o nariz e achando que nunca seria pra mim (sou definitivamente uma pessoa mais de prosa). É poesia marginal e foi o pontapé que eu precisava pra começar a ler outros poetas me derretendo de amor.

''ameixas
ame-as
ou deixe-as''

Mia, 25 anos -- Blog Wink.


Como foi/é a sua experiência com as bibliotecas? De que forma ela te mudou como leitora? Se lembra de como a conheceu?

Como sou de família pobre nunca pudemos comprar livros durante a minha infância. Porém, meus pais sempre incentivaram o hábito da leitura. No início, era com os livros antigos que tinha lá em casa, da época em que eles eram jovens. Depois, quando entrei na escola, já cheguei perguntando onde estava a biblioteca - da qual eu tanto ouvia falar em casa, aparentemente um lugar mágico onde se podia pegar qualquer livro emprestado e conhecer novas histórias. A primeira coisa que fiz ao chegar na escola, na 1ª série, foi ir até a biblioteca e pegar um livro. Como já era alfabetizada, peguei A fada que tinha ideias, da Fernanda Lopes de Almeida. A história da Clara Luz mudou completamente a minha vida porque, além de ser mágica, me introduziu ao hábito de frequentar bibliotecas.

O tempo passou e troquei de escola para frequentar o Ensino Médio. Na nova escola eles não sabiam da proibição à biblioteca, então retomei meu ritmo de leitura e explorei clássicos da literatura dos quais eu nunca havia ouvido falar. Foi maravilhoso.

Quando me formei no Ensino Médio, ingressei em um curso de biblioteconomia porque meu amor por aquele espaço repleto de livros era tão grande que eu queria trabalhar com isso. Apesar de ter cursado, minha veia literária se mostrou mais forte do que minha aptidão para organização de estantes e vim para o jornalismo, curso no qual estou me formando. Porém, nada disso teria acontecido se não fosse a mágica da biblioteca na minha vida. Apesar de ter passado por um período em que fui obrigada a socializar mais com os meus colegas ao invés de ficar lendo, aquele sentimento incrível que só a literatura nos desperta permaneceu e vive até hoje.

Mesmo podendo comprar livros agora, ainda frequento a biblioteca da faculdade e faço propaganda das preciosidades escondidas naquelas estantes para todos os meus colegas. Eu não seria quem eu sou se não houvesse bibliotecas públicas (escolares) que me acolheram quando eu queria conhecer o mundo sem poder sair de casa.

Lembra de até 3 livros importantes pra você que foram emprestados delas? Por que foram importantes?

É difícil escolher apenas três dentre tantos, mas certamente A casa dos espíritos, da Isabel Allende, Contato, do Carl Sagan e A face da guerra, da Martha Gellhorn foram muito importantes para mim porque me fizeram romper barreiras culturais e desenvolver empatia por outras pessoas.

A casa dos espíritos é a saga de uma família chilena desde o século XIX até a terrível ditadura nos anos 1970. Eu nunca teria ouvido falar sobre a ditadura chilena se não fosse por esse livro, o que já o tornaria importante. Mas ele também se destaca por ter me apresentado ao realismo mágico latino-americano, que é uma das coisas mais lindas que existem.

Contato foi o livro que fez com que eu me apaixonasse por ficção científica e percebesse que não é só porque um livro fala de ciência em termos técnicos que eu não possa entendê-lo ou amá-lo. Claro que Sagan é Sagan e tinha toda uma linguagem de divulgação científica única, o que nem sempre se encontra no gênero. Porém, esse foi o livro que fez com que eu buscasse outros e adentrasse no universo do sci-fi.

A face da guerra é uma coletânea de crônicas escritas pela Martha Gellhorn, a correspondente de guerra mais longeva do século XX. Suas crônicas falam sobre pessoas normais, cidadãos comuns, vivendo nos horrores das guerras. São tocantes e reflexivas, o tipo de jornalismo que me inspira e que certamente mudou a minha forma de pensar em texto jornalístico.

Natália, 24 anos -- Blog Lapsos.


Como foi/é a sua experiência com as bibliotecas? De que forma ela te mudou como leitora? Se lembra de como a conheceu?

Aos 7 anos, quando entrei no ensino fundamental, fui estudar em uma escola muito grande e que ficava um pouco longe de casa. Minha mãe me incentivou a procurar a biblioteca de lá e pegar um livro emprestado - lembro que fiquei maravilhada, porque achava que só os funcionários podiam pegar os livros. Também lembro de ter medo de me perder enquanto procurava a biblioteca e não encontrar o caminho de volta para a sala e de ter ficado maravilhada quando a encontrei, porque ela era muito maior e mais organizada do que a biblioteca que eu conhecia. Tive a sorte de estudar em uma escola que recebia verba do município e do governo do estado. A biblioteca tinha uma quantidade excelente de livros - tanto de pesquisa quanto literários - e recebíamos livros novos todos os anos (as vezes alguns famosos).

Saí dessa escola para fazer o ensino médio em um Centro Federal. Outra vez fiquei deslumbrada com a biblioteca, que era ainda maior do que a outra. Eu, que antes eu só ia até a biblioteca para pegar livros emprestados, descobri que a biblioteca era um excelente espaço de estudo. Ela dispunha de algumas salinhas e sempre que podíamos, eu e meus colegas íamos até lá para adiantar os trabalhos e estudar para as provas. Essa biblioteca também assinava revistas e jornais, o que eu achava super chique. Consegui colocar em dia a leitura de diversos exemplares da Mundo Estranho - minha revista preferida.

Não tenho orgulho disso, mas aprendi a burlar o sistema da biblioteca durante a faculdade. Precisávamos de livros didáticos que eram usados por todos os cursos e que sumiam das prateleiras assim que o professor marcava a primeira prova do semestre. Por isso, pegava o livro no início e dividia o uso com uma colega. Devolvia no final do semestre, com um tempo de bloqueio que durava o restante do ano. Enquanto eu estava bloqueada, essa colega pegava os livros e dividia comigo.

Enfim, as bibliotecas fazem parte da minha vida desde sempre. Seja para estuda, para ler, para me divertir, para aprender - e até para tirar um cochilo no meio do caos do final do semestre.

Minha mãe trabalhava em uma escola e sempre pegava livros emprestados na biblioteca de lá para eu ler. Lembro que ela me levava para o trabalho de vez em quando e eu ficava sentada na biblioteca, olhando os livros.

Lembra de até 3 livros importantes pra você que foram emprestados delas? Por que foram importantes?

  1. A árvore que dava dinheiro - Domingos Pellegrini;
  2. O jogo do Camaleão - Marçal Aquino;
  3. Orgulho e preconceito - Jane Austen.
E vocês, possuem algum vínculo com bibliotecas? Lembram de livros que foram importantes na sua formação literária? Me contem!

4 comentários

  1. Esse post ficou lindo, meusenhor estou vomitando arco-íris. 😍📚🌈

    COMO ainda não tive contato com A Face da Guerra? NÃO EXISTE JUSTIÇA NESSE MUNDO.

    Coleção Vagalume NA VEIA.

    Continue sendo essa ratazana maravilhosa. ♥♥♥

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  2. Eu também tive contato com minha primeira biblioteca quando era bem pequenininha, nem sabia ler, minha mãe me levava n sessao infantil e lia pra mim <3

    Com amor, ♥ Bruna Morgan

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  3. Que post incrível, e esse título digno de enem?? Hahaha amei. Eu fui introduzida na leitura pela minha mãe que sempre comprava gibi (eu estava sempre implorando por mais), como eu passei a morar em cidade pequena então eu não tinha biblioteca pública para procurar, mas quando eu passei a ficar um pouco maior o meu refúgio era a biblioteca da minha escola.

    Blog Covil Dourado | Instagram

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  4. Que projeto incrível o seu! Venho acompanhando as resenhas sem comentar, mas depois desses depoimentos me senti na obrigação de vir aqui e dizer que admiro demais tua iniciativa de despertar o interesse do pessoal pelas bibliotecas e mostrar que lá tem sim muita coisa que vale a pena ser lida, e obras para todos os gostos e idades.

    Meu caso foi parecido com o da Bia e o da Natália; eu lia em casa, os livros que minha mãe tinha por lá (que eram bem poucos, então alguns cheguei a ler três/quatro vezes), e depois fui pra biblioteca do fundamental. Como eu morava em uma zona rural, era tudo que eu tinha a disposição, e lembro que li praticamente todos os livros que na época eram do meu interesse infantil. Uns anos depois levaram um projeto chamado Arca das Letras pra localidade, e a sede (uma pequena biblioteca móvel que contava com uns 90 livros e parecia uma arca mesmo) ficou na casa da minha avó. EU SIMPLESMENTE DEVOREI OS LIVROS DALI, e me tornei apaixonada pelas aventuras escritas pelo Monteiro Lobato.

    Depois descobri a biblioteca municipal da cidade, e sempre que minha mãe ia viajar pra lá, eu pedia pra que ela me trouxesse um livro. Há cinco anos me mudei pra essa mesma cidade com a minha família, e a primeira coisa que fiz foi renovas o cartãozinho de sócio da minha mãe e pegar logo uns três livros. Essa é, atualmente, a biblioteca que eu frequento, e um dos meus lugares favoritos no mundo. Só comecei a comprar livros (de sebo porque né) no ano passado, e mesmo assim me asseguro que o título não existe na biblioteca antes de comprá-lo, e agora comecei a me acostumar com a ideia de doar alguns dos poucos exemplares que tenho pra lá, afinal o conhecimento está aí pra ser compartilhado, e já me beneficiei tanto de bibliotecas e li tantos livros que as pessoas doaram, que pra mim é um prazer deixar um lá e ter a certeza de que ele vai ser lido por alguém que, como eu, ama esses companheiros de papel e não tem muita grana.

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