Só Acontece Comigo
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Só acontece comigo #98 | BEDA #13

Outros episódios: mapeamento de cadeiras no trabalho & o cargo de assistente que na verdade era de recepcionista com pitadas de diretora de marketing & diagnóstico de rosácea & um perdido para o exame admissional & dengue na primeira semana de trabalho. 

[NEW] Linha do tempo dos acontecimentos atualizada: terminei a faculdade em 2023 > em abril de 2024, entrei no emprego do cargo de assistente que era recepcionista, onde tive o diagnóstico de rosácea e com um mês de contratação, dei o perdido para fazer o exame admissional em outra empresa > em junho de 2024, comecei na nova empresa, a mesma do mapeamento de cadeiras no trabalho, onde tive dengue na primeira semana de trabalho. Após 09 meses, fui chamada por uma empresa com salário e benefícios melhores, e mudei novamente de emprego, sendo este o local do Só Acontece Comigo de hoje. 

Pois muito que bem. Passamos anos na Universidade, com U maiúsculo, ouvindo como somos a nata da Academia, com A maiúsculo, e como o mercado de trabalho valoriza quem tem nosso Diploma, com D maiúsculo. Até que no mercado de trabalho a gente descobre que independente disso, tudo é uma Merda, com M maiúsculo. 

Após um ano do fim da minha graduação, eu já estava no meu terceiro emprego (hoje estou no quarto, mas daqui a pouco falamos sobre isso). Nascida e criada como uma verdadeira geração Z, nunca tive muito apego a empresas. Me assediou? To mandando currículo. Descobri que uma empresa do mesmo setor paga mais? To mandando currículo. To com tédio e vi que abriu vaga nova em outro lugar? To mandando currículo. Se o capitalismo é sobre vender a sua força de trabalho, que eu venda pra quem me pagar melhor etc. 

Foi com essa filosofia de vida que finalmente cheguei no emprego ideal: na área de pesquisa clínica, trabalhando 100% remoto, expectativa de progressão de carreira, salário melhor, benefícios melhores. Tudo ótimo. 

Um belo dia, enquanto eu trabalhava, minha mãe tinha chegado do trabalho dela e me mimou com uma vitamina de abacate. Dia perfeito.

Eu bebo a vitamina. 

Alguns minutos depois, eu sinto que estou com o estômago inchado. 

Mais minutos depois, minha coluna dorsal dói muito. Fica difícil respirar. Sinto muita ânsia, sem vômitos. Nenhuma posição é favorável, deitada ou em pé, eu continuo sem conseguir puxar o ar e sentindo muita dor, que já irradiou entre a dorsal e meu tórax.

Eu me pergunto: estou infartando? É este o meu fim?

Aproveito que estou com menos de um mês de empresa, mas que meu convênio médico já está funcionando, e vou para a emergência. 

O médico receita alguns medicamentos EV, e a dor passa na mesma hora. Até penso que sou feliz de novo. 

O médico me chama de volta ao consultório. 

"Eu preciso te internar, vamos ter que retirar a sua vesícula biliar."

Minha primeira reação? Dizer que eu não posso ser internada porque estou em onboarding.

E aqui uma pausa: não sei se todos sabem, mas é permitido ao paciente evadir de uma internação a qualquer momento. Você só tem que assinar um documento consentindo que é responsável por QUALQUER coisa que te aconteça fora do hospital e que recebeu as orientações do médico responsável. 

Dito isso, o médico, sem muito o que fazer, apenas me aconselha a retornar imediatamente com o gastro, para que eu marque a cirurgia eletiva.

Eu o faço, e ainda aguardo até Maio (estamos em Março), para a cirurgia. 

Após a cirurgia, minha gerente cisma que como a irmã dela, que também retirou a vesícula, só precisou de três dias de atestado, provavelmente será um atestado igual que o médico irá me dar. 

O médico me afasta por quinze dias. 

"Mas você trabalha remoto!!! Peça para ele mudar seu atestado!!!" diz minha gerente. 

Eu não peço. 

Um ano depois, já estava com férias marcadas, uma empresa concorrente me envia uma mensagem no LinkedIn, me convidando para uma vaga. Eu faço o processo seletivo. A proposta salarial é melhor. Eu comunico a gerente. 

O que eu ouço dela?

"Eu só não te promovi porque senti que ainda não era a hora. Mas isso é um problema da geração de vocês mesmo, vocês tem muita pressa. Se fosse alguém mais MADURO, ia esperar aqui na empresa uma promoção. Aliás, você já até ficou quinze dias afastada no início do ano passado, lembra?"

Não pedi desculpas por precisar tirar minha vesícula cheia de PREDAS, mas mais uma vez, troquei de emprego. 

(Agora eu aquietei, tá tudo bem no trabalho novo). 

(Eu tacando minhas pedras biliares em vocês). (Tinham MUITAS). 

Só acontece comigo #97 | BEDA #11

Outros episódios: mapeamento de cadeiras no trabalho & o cargo de assistente que na verdade era de recepcionista com pitadas de diretora de marketing & diagnóstico de rosácea & um perdido para o exame admissional.

Linha do tempo dos acontecimentos: terminei a faculdade em 2023 > em abril de 2024, entrei no emprego do cargo de assistente que era recepcionista, onde tive o diagnóstico de rosácea e com um mês de contratação, dei o perdido para fazer o exame admissional em outra empresa > em junho de 2024, comecei na nova empresa, a mesma do mapeamento de cadeiras no trabalho, local onde também se passa o "Só Acontece Comigo" de hoje. Seguimos. 

Após a contratação, fui ao meu primeiro dia de presencial no novo trabalho. Me apresentei para as pessoas. Continuei sem acesso aos sistemas. Conheci as dependências do lugar. Tudo estava indo bem. 

Ao longo da tarde, percebi algo estranho: meu corpo doía muito. Tentava me mexer na cadeira para ficar mais confortável e nada adiantava. A hora de ir embora chegou, e como eu estava com os equipamentos do home office, preferi voltar para casa de Uber, mesmo que ficasse muito caro. 

No Uber, as coisas ficaram ainda mais estranhas: não conseguia manter meus olhos abertos. A dor já tinha pegado o corpo todo. 

Chegando em casa, senti muita dificuldade de descer do carro, e como moro em um local com muitas escadas, quanto mais eu andava, pior era. Comentei com a minha mãe "Nossa, a ergonomia daquele trabalho precisa melhorar, eu to muito dolorida", e fui tomar banho. O único momento em que não senti dor. 

Deitei na cama e não conseguia achar uma posição confortável. 

No dia seguinte, a surpresa: diagnóstico de dengue na primeira semana de trabalho novo. 

Passei duas semanas dormindo, sentindo muita dor, coçando meus pés e mãos incansavelmente até retornar pro trabalho torcendo pra não me demitirem. 

Não demitiram, mas sempre desconfiaram que eu estava mentindo. 

Só acontece comigo #96 | BEDA #08

 Post em homenagem ao Liko


Outros episódios: mapeamento de cadeiras no trabalho & o cargo de assistente que na verdade era de recepcionista com pitadas de diretora de marketing & diagnóstico de rosácea

No mesmo emprego em que atuei como assistente na verdade sendo recepcionista com o cargo de diretora de marketing declarado em minha carteira e tive o diagnóstico de rosácea, eu estava acompanhando o onboarding de novos colaboradores. 

Como já tinha percebido que as coisas não estavam boas pro meu lado, e ouvia dois funcionários que trabalhavam na empresa há anos reclamando constantemente da gerente que me diagnosticou com rosácea, eu já tinha percebido que não havia a possibilidade de melhora do ambiente de trabalho e por isso estava morrendo, mas atirando: enviava currículos todos os dias. Fiz entrevistas no transporte público, no estacionamento e no banheiro. 

Com exatamente um mês de contratação, passei em uma outra instituição, e enquanto não recebia a carta proposta, estava resolvendo tudo em silêncio. No exato dia em que eu seria a responsável por acompanhar o onboarding dos novos contratados, levando-os aos setores da empresa e orientando algumas atividades, a empresa que estava me contratando (e que diga-se de passagem, é a empresa do mapeamento de cadeiras), me chamou para o exame admissional. Sem querer contar o que estava acontecendo, com medo de acabar perdendo a vaga, saí no meu almoço para o exame admissional e avisei a coordenadora: tenho um agendamento médico, volto logo. 

O que deveria ser rápido levou três horas, e os outros funcionários tiveram que ocupar o meu lugar no onboarding. No dia seguinte, a coordenadora sentou comigo e sem olhar em meus olhos, começou a discursar sobre como havia uma expectativa em relação a minha performance para aquele momento que eu não havia cumprido, e que estava deixando o time "na mão". 

Eu, já aprovada no exame admissional, apenas respondi com "Eu acho que você sabe o que está acontecendo". No que a coordenadora, realmente sem desconfiar de nada, me respondeu "Não sei, me conta". 

E esse foi o meu pedido de demissão. 

A gerente, uma mulher assediadora e incapaz de gerir pessoas, segurou nos meus ombros enquanto se despedia dizendo "Espero que sua nova coordenadora seja ótima e que você seja muito bem tratada, assim como foi aqui". 

Quando já estava no outro emprego, ainda recebia algumas atualizações do Google Drive da empresa no meu e-mail pessoal, e para o onboarding da próxima pessoa contratada no meu lugar, uma vídeo aula sobre assédio no local de trabalho foi adicionada. 



Só Acontece Comigo #95 | BEDA #06

Como eu nunca abri nenhum processo trabalhista vou usar o BEDA como uma válvula de escape. 

Outros episódios: mapeamento de cadeiras no trabalho & o cargo de assistente que na verdade era de recepcionista com pitadas de diretora de marketing. 

No mesmo emprego em que eu era-assistente-mas-fui-contratada-pra-ser-recepcionista-e-no-final-acabei-ainda-trabalhando-como-assistente-de-RH, era comum que na semana de aniversário de alguém, fôssemos comer em um restaurante próximo. 

Em um desses eventos, sentei em frente a outra assistente. Uma pobre menina que assim como eu, estava procurando um cargo como assistente de pesquisa (com um mestrado em neurociências em andamento) e acabou caindo no limbo de ser uma assistente faz tudo de RH. 

Deixei meu RG em cima da mesa, porque ele seria necessário para algum processo dentro do restaurante, e me distrai conversando com outra pessoa. 

Em um tipo de bullying que só existe no local de trabalho (e que costuma ser até pior do que o da escola, porque vai você falar pra outro adulto que a atitude dele não foi legal?), a sorrateira assistente pegou meu RG e sem meu consentimento, começou a rir da minha foto, chamando a atenção de muitas outras pessoas para fazerem o mesmo. 

Eu, tímida, fiquei corada. 

Minha gerente, não satisfeira com a sessão de humilhação do dia, ao ver minhas bochechas rosadas, soltou em alto e bom som: "Ai amor, você tem rosácea?". 

No que outra pessoa respondeu: "Não, ela tá com vergonha". 

Saí mais cedo do almoço pra fazer uma entrevista de emprego no meio do estacionamento da empresa. 

Missão da semana contra o vilão no BEDA: O Pergaminho Esquecido. Publique um dos seus rascunhos antigos (e informe desde quando estava parado). Rascunho guardado desde Abril de 2024, época do ocorrido. 


Só acontece comigo #94 | BEDA #05

Da série: péssimas experiências em locais de trabalho. 

Antes do fatídico emprego com mapeamento de lugares, passei um mês no que, na época, era meu primeiro emprego pós-faculdade. Sim, um mês. 

O anúncio da vaga correspondia ao que eu buscava naquele momento: um cargo de entrada na pesquisa clínica (área responsável pela testagem dos medicamentos em seres humanos antes da sua aprovação pelos orgãos regulatórios para venda). 

Após um longo processo de contratação, com direito a prova, comprovação de cursos, case, entrevista com RH e entrevista com a gestão direta, fui aprovada na seleção. YAY. 

Primeira semana de trabalho. Empolgação a mil. Sou apresentada à minha mesa, com computador, teclado e gavetas apenas para meu uso. Noto um detalhe estranho: o escritório em modelo "aberto" tem fileiras de mesas uma ao lado da outra. A minha, por um acaso, está afastada de todas e próxima aos elevadores. Apesar de estranhar, não dou muita atenção ao fato e sigo empenhada em meus dias de Onboarding. Apresentações daqui, dinâmicas dali, o Onboarding acaba e na sexta-feira da primeira semana de contratação, iniciamos nossos trabalhos em nossos postos. 

A mesa afastada? Seguia o objetivo da gestão: me colocar para trabalhar como recepcionista. 

A vaga anunciada? Assistente de Pesquisa. 

O cargo registrado na minha carteira? DIRETORA de Marketing. 

Em um mês muitas mais coisas aconteceram, mas vamos por partes. 

Missão da semana contra o vilão no BEDA: O Pergaminho Esquecido. Publique um dos seus rascunhos antigos (e informe desde quando estava parado). Rascunho guardado desde Abril de 2024, época do ocorrido. 


Só acontece comigo #93 | BEDA #03


Era uma quinta-feira comum. O único dia de presencial do meu antigo emprego. 

Uma colega de trabalho, que aqui chamaremos de Virginia*, já vinha, a algum tempo, demonstrando não gostar tanto de mim, o que não me incomodava, já que era reciproco. Eu, no entanto, agia de forma minimamente educada: a respondia sempre que estritamente necessário, mas evitava ao máximo ter contato. Ela, por outro lado, sempre que possível, tecia comentários inapropriados, com a intenção de me atingir. 

Virginia, por sua personalidade, no geral não era gostada pelas pessoas do escritório. Com exceção de sua amiga, que aqui nomearamos como Floflô Biruta*, uma persona extremamente política no mundo corporativo: sempre sorrindo para todos, interessada pelos assuntos gerais e vista como "a mais simpática e a mais inteligente" do local. Personalidade que não condizia com sua amizade tão fiel (e a nível pessoal) com Virginia, seu completo oposto.

Na hierarquia, meu trabalho respondia ao trabalho de Floflô Biruta. Mesmo assim, sempre que o dia de trabalhar presencial chegava, eu, como adulta que sou, escolhia meu lugar no escritório no completo oposto ao dela, por ser onde meus colegas de trabalho mais próximos estavam sentados. Foi quando a quinta-feira comum tornou-se um pouco estranha. 

Floflô Biruta, sem conseguir impor seus próprios desejos, com medo de perder seu posto de princesa querida do local, insinuou para Virginia, sua amiga, que gostaria que nos dias de presencial eu sentasse mais próxima a ela. Para que ela vigiasse meu trabalho. Assim, sem motivo algum. 

Como estávamos sendo remanejados de andar, Virginia aproveitou a deixa para, sem a minha permissão, colocar meus pertences na mesa entre ela e Floflô Biluta. Eu, que como já dito, estava em um cargo abaixo na hierarquia, não quis arriscar me posicionar. 

Meus amigos de trabalho, no entanto, que nada tinham a perder, se solidarizaram com a minha situação e exerceram seu direito de expressão. Revoltados, retiraram minhas coisas de lá e as colocaram novamente próximas a eles. 

Virginia, inconformada, passou o dia me perguntando quem tinha tirado minhas coisas de lá. "Não sei", eu respondia sabendo. 

Na semana seguinte, um anúncio da liderença: todos podem escolher onde sentar. Somos adultos, não precisamos disso.

Virginia? Ficou com tanta raiva que ameaçou denunciar no compliance o amigo que me tirou de lá (sendo claramente desmotivada pela liderança). 

Floflô Biruta? Ficou em completo silêncio todo o tempo.

Eu? Imediatamente comecei a enviar novos currículos. Foram longos nove meses de contrato. 

*Os nomes foram escolhidos como forma de homenagear minhas colegas de trabalho, que passavam o dia acompanhando os stories da citada influencer. Neste blog não a veneramos. 

Missão da semana contra o vilão no BEDA: O Pergaminho Esquecido. Publique um dos seus rascunhos antigos (e informe desde quando estava parado). Rascunho guardado desde Agosto de 2024, época do ocorrido. 

Só acontece comigo #92

Ter uma cachorrinha, mas não ter um carro, causa algumas perturbações aqui em casa, já que as quatro patas não aguentam longas distâncias como as quatro rodas automobilísticas. Agora que moramos em um local cujos veterinários estão mais longe, optamos por não forçar a Paçoca a andar até eles, então começamos a pedir para que motoristas de Uber/99 nos levassem até os médicos quando ela precisa, sempre perguntando antes, pelo aplicativo, se tudo bem levar um cachorro. Alguns fazem cara feia, mas a gente finge não ver e segue a vida, até que chegou esse dia, em que não deu mais pra seguir. 

Estávamos saindo do veterinário e fiz o que já é nosso padrão: ficar na calçada, pedir o serviço pelo aplicativo e perguntar pelas mensagens se a pessoa se incomoda em levar a cachorrinha assim que a viagem é confirmada. Recebemos um "Claro, sem problemas!" como resposta e por isso entendemos que claro, sem problemas

Até o carro chegar, parar no sentido contrário ao nosso em uma avenida movimentada, nos olhar e dizer "Vou fazer o retorno para vocês não precisarem atravessar a avenida!", ligar o carro e nunca mais voltar. 

Você teria coragem de negar uma carona para essa cachorrinha? 

Só acontece comigo #91

Eu demorei um tempo para entrar na faculdade. Passei bons quatro anos tentando um curso concorrido, e quando entrei, estava com 22 anos. O que nos leva para o momento atual, em que curso meu penúltimo ano de graduação aos 25 anos. 

Graduação essa que tem estágios obrigatórios ao longo do ano todo. 

Como faço enfermagem, o contato com o paciente acaba sendo muito maior que nas outras profissões da saúde. E consequentemente, fica muito mais fácil passar por ótimos momentos. 

Com tudo isso em mente, posso contar melhor o ocorrido da vez. Estava eu, conversando com um idoso recém saído do seu banho, quando ele diz que eu no máximo tenho 16 anos. Eu respondo dizendo que sou mais velha. Ele rebate com um "O que é mais velha pra você?", no que eu finalmente digo minha idade atual, e ouço um sonoro: 

– Nossa você entrou na faculdade meio tarde, né? Não gostava de estudar não?



Só acontece comigo #90

Como já comentei por aqui antes, mudei de casa. 


Até então, tudo estava indo bem, mas aparentemente, como um presente pelos 6 meses em que estamos morando aqui, a instituição "Casa Nova" decidiu que já era hora de começar a mostrar quem realmente é, e um problema peculiar surgiu: o banheiro do primeiro andar, logo acima do banheiro do térreo, tem algum problema que pode ou não ser de encanamento e pode ou não ser no piso, e com isso, o banheiro logo abaixo dele ganhou uma goteira (forma carinhosa de nomear a verdadeira cachoeira) em sua lâmpada. 


O banheiro do primeiro andar, assim, teve que ser interditado. Mas era nele que tomávamos banho, e por ser o banheiro do meu quarto, apesar da mudança do chuveiro, continuei usando a privada e a pia para escovar os dentes e lavar as mãos. 


O problema continuou, provando que a culpa não era do chuveiro. 


Mas eu, sempre um pouco sonolenta, tinha dificuldades de lembrar que não deveria mais usar esse banheiro assim que eu acordava. Até que um dia, quando voltei pra casa, descobri que minha mãe havia dado uma solução para a questão:


Trabalhamos apenas com instituições respeitadas. 

Só acontece comigo #89

Apesar de ainda não estar com todas as aulas presenciais, tenho algumas atividades da faculdade que já retornaram. O que implica que estou frequentando a faculdade. O que, por sua vez, implica que preciso usar o banheiro dela.



Pela primeira vez na vida senti empatia por um cocô.

Só acontece comigo #88

Ao longo do meu curso de graduação, tenho alguns estágios obrigatórios inclusos na minha grade, e preciso fazê-los no hospital universitário, pois contam como matérias dadas. Antes de cada um deles, temos atividades para aprender a realizar o que precisaremos em outros alunos (cobaias), e em um desses dias, fui a cobaia para um exame físico abdominal, que consistia em ter minha barriga apertada várias vezes, para que a outra aluna identificasse se estava tudo bem comigo e aprendesse a reconhecer possíveis anormalidades nos pacientes que atendesse. 


O problema é: meu exame abdominal não foi tão normal quanto deveria, pois sou uma pessoa constipada desde o berço, e depois de um olhar meio preocupado, a pessoa em questão soltou um "Ér... Professor? Eu tô sentindo uma massa, é normal?", e foi orientada a perguntar quando foi a última vez que a pessoa sendo examinada defecou. Eu, princesa que sou, respondi:


— Mais de três dias.


— Mas nossa, esse é seu normal? Tem sentido dores ou algo de diferente que observou?


— É meu normal sim, nada que um cafézinho não resolva. 


Às vezes eu não sei perceber quando é a hora certa de simplesmente não falar algo. 

Só acontece comigo #87

O ocorrido deste "Só acontece comigo" data de antes do dia 14 de Março de 2020, quando se iniciou o período de quarentena. Se puder, fique em casa. 


O mês era Janeiro. O Brasil ainda era um país minimamente possível de se viver em. Meus amigos que fazem faculdade longe de onde moramos tinham voltado para suas casas, e como regra, sempre nos encontramos durante nossas férias. Nesse dia fomos em um bar, e grande parte deles retornou pra casa depois das 23, mas não eu, o alecrim dourado e diferente, porque acompanhei um outro amigo em uma balada com entrada de graça. Às duas da manhã já estávamos os dois sentados pensando nas nossas camas? Estávamos, mas no ímpeto de aproveitar a juventude, ficamos.


Às 04:20 da manhã pensamos: "faltam 20 minutos para abrir o metrô!" e saímos com certa vontade (dores e olheiras) da balada em direção a subida da rua Augusta para a estação Consolação. Estávamos nós, sonolentos, subindo de mãos dadas para prevenir quaisquer assédios, quando uma travesti simplesmente surgiu na nossa frente gritando "que casal bonitoooooo", no que respondemos "não somos um casal" e meu amigo, uma criatura sempre muito alegre, começou a fazer uma espécie de dança com gritinhos com ela, enquanto esta passava a mão na cintura dele. Mais um dia normal em São Paulo. 


Do nada a dança se transformou em briga: a travesti saiu de perto enquanto meu amigo a acusava de ter roubado seu celular, que estava em um bolso muito próximo do local em que ela passou as mãos durante as festividades deles. Eu, que odeio conflitos, e queria muito minha casa, que ainda estava a duas horas dali, perguntei se ele tinha certeza do que estava falando, já que não estávamos nos nossos momentos mais lúcidos, e ele afirmava veementemente que estava sendo roubado.


Assim como a primeira apareceu de repente, duas travestis surgiram do outro lado da calçada com gritos de "EPA, EPA, EPA, QUE QUE TÁ ACONTECENDO AQUI? QUEM TÁ GRITANDO COM  A NOSSA AMIGA?" e meu amigo, no desespero, só dizia que ela tinha roubado o celular dele, enquanto ela dizia que não sabia do que ele estava falando. 


Tudo aconteceu muito rápido.


De repente meu amigo estava agarrado aos cabelos dela.


Ela pedia pra ele não bater nela.


Ele dizia que não ia bater e só queria o celular.


Ela se desiquilibrou na guia da calçada.


Ele também.


Os dois no chão, um em cima do outro.


Uma das amigas dela grita "EU VOU MATAR UM HOJE!" pega uma garrafa de vidro vazia sabe-se de onde e a quebra pela metade na guia. 


Eu pensei: "nossa, como é que eu vou explicar isso pros nossos pais depois no hospital?", já prevendo o pior.


O celular foi devolvido.


Voltamos a subir a rua Augusta.


Ninguém se feriu. Só a garrafa. 


Só acontece comigo #86

Minha faculdade virou EAD por causa da pandemia. Não importava se meu curso tem muito conteúdo prático, nem se o mundo está um caos: as aulas iriam retornar online e ponto. Por um lado é bom, poupa dinheiro, sono, tempo e psicológico. Só não impede que eu passe minhas vergonhas de sempre. 


A aula era de uma liga acadêmica. Eu não estava conseguindo conectar meu microfone, então fiquei um tempo tentando resolver a questão, um mau contato entre ele e minha CPU. A aula continuou e o problema foi resolvido. 


Em um determinado momento, minha mãe, muito curiosa, parou do meu lado e expressou suas opiniões sobre as pessoas que estavam com as câmeras ligadas:


— Olha a cara daquele ali, ele tá muito feliz!

—  É ele o orientador da minha pesquisa, é muito bonzinho. 


E aí eu mexi meu mouse.
E descobri que meu microfone estava ligado.
E aberto.
E funcionando muito bem. 


Podia ser pior, né? Eu poderia ter falado mal dele...


Só acontece comigo #85

Estou em quarentena desde a metade de março. Minha mãe é a única que continua saindo quase diariamente para ir ao trabalho, então estou sendo a nova dona de casa daqui. Não é minha área de atuação preferida, e às vezes não me atento tanto às tarefas que precisam ser feitas mas que não estão tão óbvias, como limpar o microondas, por exemplo. Então minha mãe deu um jeito nisso: 


Só acontece comigo #84

Todos os posts da série "só acontece comigo" aconteceram antes do dia 14 de Março de 2020, data em que se iniciou o período de quarentena. Fique em casa. 



Se você tem um cachorrinho em casa, sabe que para passear com ele é necessário se munir de saquinhos para recolher possíveis necessidades fisiológicas. É algo que nem aprendemos, uma atividade inerente ao ser humano: se vou sair com o bichinho, automaticamente uma sacola aparece em minhas mãos. Mágica. 


Era um dia de semana, minha mãe havia acabado de chegar do trabalho e como Paçoca, a primeira de seu nome, nossa cachorrinha de estimação, não aceita passear apenas com uma de nós, fomos as três caminhar pela vizinhança. Munidas da sacolinha, é claro.


Paçoca é uma cachorrinha apaixonada por matos em geral. Grama, flores, árvores, parecem ser seus calmantes. E ali estávamos nós, paradas em uma calçada com uma plantação de flores, as quais Paçoca estava cheirando enquanto sentou. Apenas sentou. 


O morador da casa, um homem por volta dos sessenta-e-pouco anos, chegou em sua bicicleta e o barulho assustou o animalzinho, que se encolheu e empacou, sem querer sair do lugar. O homem reclamou de algo com a voz "para dentro", e apesar de eu não ter entendido uma só palavra do que ele disse, minha mãe entendeu e respondeu.


-- Senhor, ela não fez cocô aí.

-- PALHAÇADA, VEM NA FRENTE DA CASA DOS OUTROS PRA CAGAR. 


Paçoca tinha tanto medo que uma única bolinha de cocô não seria capaz de sair dela, de tão encolhida que estava, e o homem continuou reclamando enquanto tentávamos atravessar com ela no colo. 


-- TEM QUE SAIR COM SACOLINHA, PIPIPIPOPOPO. 


E eu, tomada por uns instinto materno, me virei lentamente e quando vi as palavras já tinham saído. 


-- Senhor, ninguém cagou na sua casa, só você. 


Todos os dias da minha vida ainda penso em colocar o cocô da Paçoca em uma carta e entregar na residência. Desculpa. 

Só acontece comigo #83

Todos os posts da série "só acontece comigo" aconteceram antes do dia 14 de Março de 2020, data em que se iniciou o período de quarentena. Fique em casa. 



O telefone residencial de vocês ainda tem alguma utilidade? Por aqui, a única função é receber ligações enquanto estou dormindo que me fazem levantar e ter que responder que "não, fulano de tal não mora nessa residência, e que tudo bem, enganos acontecem". Ainda assim, às vezes surgem necessidades como ligar pra consultórios, e foi em um desses momentos de necessidade que descobri o não funcionamento do meu aparelho. 


Não sei se isso é um fato, mas tanto minha mãe, como eu, já percebemos que telefones residenciais sem fio são mais propensos a dar problemas rapidamente. Depois de constatar isso, lembramos que tínhamos guardado nosso antigo telefone com fio, então o reinstalamos. A linha continuou muda.


Mandei mensagem para a prestadora do serviço pelo site e agendei uma data para receber o técnico, o herói que nos salvaria do terrível mundo sem um telefone para que o telemarketing nos liga-se. 


O dia chegou. O serviço seria cobrado na próxima fatura. Um valor de 90 reais. "Vai valer a pena" eu pensei, "não vamos mais precisar tão cedo".


O moço entrou.
Olhou pro telefone.
Olhou pro modem. 
Mudou o fio do telefone conectado ao modem de entrada. 
O telefone voltou
90 reais a mais na conta.


Sabe quando te perguntam se você já tentou reiniciar o modem ou trocar o fio de lugar e você revira os olhos como um adolescente que jura saber mais que todo o resto do mundo? Às vezes é bom conferir.

Tem texto meu no Valkirias falando sobre Por Lugares Incríveis!

Só acontece comigo #82

Ser uma pessoa com uma renda não muito alta envolve usar o pouco dinheiro existente pra comer e pagar contas necessárias enquanto vê tudo o que precisa ser renovado ficando pra trás. Um desses itens era a cortina da minha cozinha, que já era tudo, menos uma cortina, de tanto tempo que estava ali. Até que um dia minha mãe cansou, vestiu sua melhor calça jeans e foi ao centro da cidade comprar uma nova. O evento envolveu grande comoção: pegamos furadeira emprestada, chamamos meu namorado pra ajudar e instalamos a nova peça que de tão branca, reluzia. 


Só que isso é um Só Acontece Comigo, e é claro que não vai terminar bonito desse jeito. A cortina ficou mais curta que nossa janela, então parecia que de um dia pro outro a janela tinha repaginado o visual e passado a usar calças capri, ou cortina capri. E um detalhe: era tão branca, que olhando do quintal, era como se nem existisse cortina, porque toda a cozinha estava visível. Minha mãe, que não leva desaforo pra casa, resolveu o problema no mesmo instante. Com um lençol. 



Ser pobre é bom demais.

Só acontece comigo #81


A vida anda corrida, bem mais do que antes, e a única alternativa pra conseguir conciliar as obrigações rotineiras com as que surgem espontaneamente, é a pior de todas: abdicar das horinhas de almoço pra resolver problemas. 

Eis que em uma dessas abdicações, como realmente não queria ir pra outro lugar sozinha, chamei alguns amigos para irem junto comigo por livre e espontânea manipulação sentimental, em um local que ficava à algumas estações do metrô de distância. Para que eles não acabassem tendo que pagar mais de uma passagem, combinei de me esperarem dentro da estação, deixei minha mochila com eles e levei só o que ia precisar. 

Em dez minutos estava de volta e poderíamos retornar para nosso lindo e belo almoço. A não ser pela parte em que eu esqueci meu cartão de passagem dentro da mochila. E eles sumiram. Com a minha mochila.

Rodei a estação inteira, pensei em maneiras de pular a catraca sem ser notada, em gritar o nome deles pro vento, em procurar um banco 24 horas perto da estação pra tirar dinheiro, em sentar no chão e chorar, em ligar pra minha mãe avisando que nunca mais voltaria pra casa, e ai, finalmente, meu lado racional agiu e chamei uma jovem aprendiz do metrô pra me ajudar.

-- Moça... Desculpa... Meus amigos ficaram ai dentro... E eu saí... Mas eles tão com meu cartão e eu tô presa aqui fora... -- a moça perguntou como eles são, olhou pros lados, conversou com um segurança e voltou pro meu lado.
-- Ai, só se você esperar uns quinze minutinhos, não tem como a gente te ajudar...

Passaram-se os quinze minutos em que eu me visualizei nunca mais encontrando minha família outra vez e nenhum sinal dos benditos. Voltei pra perto da funcionária.

-- Oi, então... Eles não apareceram... Não dá pra anunciar o nome não...?
-- Ah, eu posso ver... -- chamou o segurança, que curiosamente era um senhor de bigode grosso que contribuía muito para a comicidade da situação.

Enquanto eu olhava pros dois com desespero, eles fingiam que eu sequer estava ali e começaram o seguinte diálogo:

-- Tem certeza? -- o segurança.
-- Tenho... Não tem ninguém aqui... -- a funcionária.
-- É que às vezes é gangue, né? Perigoso... Tentando entrar na estação...

PORQUE É CLARO QUE EU TOTALMENTE SOU DE UMA GANGUE DE JOVENS QUE MENTIRIA SOBRE ESTAR SEM O CARTÃO PRA FAZER SABE-SE LÁ O QUE NA ESTAÇÃO.

-- Qual o nome do amigo que é pra anunciar? -- falei o nome que por motivos de não tenho advogados para lidar com processos não será exposto. O segurança virou as costas e foi até a cabine do alto-falante. -- Senhora ******, favor procurar um funcionário do metrô.

E EM CINCO SEGUNDOS ME SURGEM OS BENDITOS.
PORQUE ELES TINHAM SENTADO.
ATRÁS DE UM MURO.
DO LADO DA CATRACA.

Nem capacidade de fazer parte de uma gangue a gente tem, sabe? Primeiro que eu esqueci meu cartão na mochila, segundo que eles sentaram no chão, nem vitalidade tem pra fazer parte do crime, pelo amor.

Mas eu voltei pra casa. Tá tudo bem. 

Só acontece comigo #80

Faculdades possuem estudantes jovens. Jovens gostam de mandar confidências em páginas nomeadas de spotted. Logo, faculdades com jovens possuem spotted

Uma colega da faculdade, muito tímida, avistou um menino cuja aparência liberou seus hormônios, e por não possuir uma conta no Facebook (ou ter mentido dizendo que não tinha), me pediu para entrar na página destinada a segredos e comentários degradantes em busca do dito cujo. Ela me enviou a mensagem que eu deveria escrever. Eu escrevi.

Essa página em questão funciona da seguinte forma: você entra em um link que te redireciona para um formulário do Google, onde você preenche seu campus e seu segredo. Eu sabia disso. Todos sabem disso. 

Mandei o segredo.

Alguns minutos depois meu celular começa a pipocar. "O QUE FOI AGORA NESSA MERDA QUE NUNCA TENHO PAZ", pensei eu. Eram prints. Do segredo que eu enviei. Pedindo o nome de um moço que eu sequer vi quem era. Estava anônimo, o tal segredo? Não, não estava, porque eu tive a capacidade de postar a mensagem no mural da página. 


Dentro de três minutos a postagem estava apagada, mas um total de quatro pessoas vieram me avisar do ocorrido. Se quatro viram, QUANTAS MAIS NÃO DISSERAM NADA?

Se você se esforçar direitinho, mesmo que isso tenha acontecido há meses atrás, ainda é possível ouvir meus gritos de vergonha ecoando pelo Brasil. 

Só acontece comigo #79

Vocês sentiram falta dos posts sobre o transporte público? Se sim, é um dia de sorte, porque eu voltei.






Era um domingo, e até aquele dia, se me perguntassem o que pode dar errado em um domingo, eu diria que nada. Às 18 horas saí da casa do meu namorado, na cidade vizinha. O Estado de São Paulo é um lugar muito doido, porque quando eu falo cidade vizinha, sempre penso na tristeza que é não ter um carro: se eu tivesse um, levaria trinta minutos, no máximo, da minha casa a dele, mas como não tenho, perco duas horas em dois ônibus e um trem. Como já aceitei essa demora entre uma cidade e outra, nunca me dei o trabalho de decorar a linha de ônibus que preciso pegar na cidade dele; se ele me colocar em um foguete pra lua, eu só aceito. Ele me disse pra entrar no ônibus que estava vindo, e eu entrei.

Logo que sentei pensei em pegar meu celular para ir revisando a matéria da prova que teria naquela mesma semana, mas o motorista estava conversando muito alto com outro passageiro e de qualquer forma eu não conseguiria me concentrar. Então fiquei ali, olhando pro nada e prestando atenção na conversa -- conversa essa que era sobre o atual presidente e como o país é conservador, e não socialista como o lula molusco e seu partido tentaram fazer por tantos anos, e ainda bem que o atual presidente é quem é etc. etc. etc --, enquanto sentia que a qualquer momento eu iria entrar em combustão de tanta raiva. 

Papo vai, papo vem, o tal passageiro desceu e enfim o motorista se calou. Mesmo assim, não peguei o celular porque tenho estimado mais ou menos o tempo que passo dentro do ônibus até o trem, e pelas minhas contas o destino estava por perto. Ele realmente estava, mas veio em forma de uma piada, da mais sem graça. 

Conforme algumas pessoas desceram, um banco na janela ficou vago, e como eu estava desconfortável em um próximo do corredor, me mudei pra lá. Mais pessoas desceram, eu continuei lá. Sobraram eu e mais quatro pessoas, mas eu ainda esperava pelo trem.







Só que é como dizem: a vida é trem bala, irmão.

E COM CERTEZA VAI TE ACERTAR E TE ARRASTAR PELOS TRILHOS.

As quatro pessoas que ainda estavam no ônibus desceram. Elas me olharam. Eu olhei pra elas com meu melhor olhar de Marina Joyce pedindo help, mas elas não notaram. 

O motorista apagou as luzes do ônibus. Deu partida. Assobiou. 

Eu me caguei de forma não literal, mas foi quase.

Olhava pela janela e sabia que estava bem longe do trem, eu sequer sabia que lugar era aquele. No caminho só via casas e igrejas evangélicas, então comecei a pensar em qual delas eu poderia entrar, me fingir de enviada por Deus e pedir pelo amor D'ele pra que alguém me levasse pra casa porque eu estava perdida. Enquanto isso, pra minha sorte, o motorista minion começou a cantar louvores, DETALHE: ENQUANTO XINGAVA TODOS OS OUTROS MOTORISTAS.

Eu não sabia se eu ia morrer, ser sequestrada, se me jogava do ônibus em movimento, se levantava e tirava as mãos do motorista do volante, eu tava DESESPERADA PORQUE IA MORRER COM UM MOTORISTA SURTADO QUE XINGAVA E LOUVAVA À DEUS AO MESMO TEMPO.

Peguei meu celular, porque se fosse pra morrer eu pelo menos avisaria a polícia. 

Mais de 50 chamadas perdidas. Um SMS da criatura que eu namoro dizendo "PELO AMOR DE DEUS DESCE DESSE ÔNIBUS!".

Eu levantei. No meio da escuridão. O motorista amando à Deus e xingando a mãe do motorista ao lado. Me encostei na catraca.

-- Moço...
-- AI QUE SUSTO CARAMBA! -- me olha pelo retrovisor -- O QUE É QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AQUI? NÃO ERA PRA VOCÊ ESTAR AQUI!
-- Eu vou pro trem...
-- ESSE ÔNIBUS NÃO VAI PRO TREM NÃO!

Meu celular toca, eu atendo:

-- Você me colocou no ônibus errado, né?
-- Aham.

***

O motorista me deixou em frente a um ponto -- que coincidentemente, é a faculdade do meu namorado --, e o dito cujo já estava me esperando ali por perto de carro com um conhecido. Me buscaram e me trouxeram pra casa sã e salva, mas com o psicológico permanentemente abalado. 

Algumas pessoas tem medo de palhaços, outras de pombas, eu tenho de motoristas de ônibus. 
© Limonada
Maira Gall