Tarde de domingo.

Toda vez que passo naquele paço
ouço meus próprios passos 
e sinto que por um só passo
não estou perto de voar. 

Toda vez que estou naquela rua
sinto minha carne exposta, crua, nua
e lembro de como ali não era meu lugar. 

Toda vez que me perco 
nos meus pensamentos 
vejo que o pensar é só lembrar.

E toda vez que eu penso
lembro do paço 
lembro da rua
só assim sei como 
e onde
me encontrar. 

Só acontece comigo #55

Cenas que comovem.


Vocês conseguem imaginar o estado mental da pessoa que pega o transporte público antes das 7 da manhã? Pois já adianto que não é dos melhores.

Há uma semana atrás, estava eu, pobre menina sonolenta, em meu primeiro dia de toda uma nova rotina pela frente. 

O metrô paulistano é uma experiência estranha até pra quem já reside na cidade há muito tempo: cada estação, um mundo novo à descobrir. Existem estações com portas de vidro automáticas que se fecham junto com as do trem, e outras que não as possuem.

Eis que eu estava em uma com a bendita porta, acompanhada de um amigo com quem compartilho os momentos de aflição até nosso local de destino diariamente.

O trem chega.

As portas abrem.

A mulher da minha frente ameaça entrar no trem, mas não o faz.

As portas fecham.

O meu amigo?

Dentro do trem.

Eu?

Na estação o vendo partir enquanto ambos tínhamos ataques de riso, cada um do seu lado do muro. 

Nunca pensei que os anos assistindo O Terminal e Esqueceram de Mim fariam sentido em algum momento da vida.

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Não sei se vocês são pessoas que acreditam no alinhamento das energias universais, mas eu tô prestes a confirmar teorias do tipo, considerando que exatamente uma semana depois do episódio de O Terminal+Esqueceram de Mim, me vi em uma nova versão de uma sitcom estranha que provavelmente seria produzida pela Fox.

Lembram da menina sonolenta? Hoje ela estava revigorada, pronta para encarar a vida, disposta a correr maratonas. Eis que seu braço é cutucado em meio a muitas pessoas que iam e vinham na estação. Estaria o seu cadarço desamarrado? Teria seu dinheiro caído no chão? Menina Tatiane olha em direção ao cutuque e encontra uma garota com um sorriso tímido a encarando.

- Oi... Desculpa... Você tá indo pra Unip?
-... Não... - ri simpaticamente por fora, mas por dentro é só nervoso.
- Ah, desculpa, achei que você fazia faculdade!


Única reação possível pra vida:
¯\_(ツ)_/¯

Self image 2017.



Eu escrevo. Escrevo quando não consigo encontrar ninguém com quem posso falar, quando tenho pessoas com quem falar e preciso passar adiante, quando tudo é grande e sufocante, ou tão pequeno a ponto de causar agonia. Com ou sem motivo, eu escrevo.  

Sou a parte final da minha família paterna e carrego o peso de poder - ou não - dar continuidade ao nosso sobrenome (justo esse, que não gosto tanto como o outro) e no lado materno, carrego o peso de precisar alcançar toda uma geração com faixa etária parecida, mesmo que nenhum deles faça a mínima ideia de quem eu realmente sou além do sorriso forçado quando ali estou. 

Sou a pessoa que caminha às 9 da manhã e passa creme em todo o corpo antes de dormir, mas que esquece de passar protetor solar e que toma refrigerante com uma frequência perigosa, sou a ligação entre o benéfico e o não-tão-bom-assim, o que me faz, mais do que nunca, uma pessoa completa.

Mas nem tão completa assim (estou no caminho) (eu e o resto do mundo).

Sou a sombra durante o almoço ao lado da biblioteca, sou quem deixa os rastros de borracha pelo chão e a amiga que passa duas aulas abraçada com quem precisa de um pouco de atenção. Eu sou o meu poema favorito, aquele em que Drummond diz que a vida acontece e que nós apenas precisamos reagir a ela sem deixar que tudo pese demais, e desde que o adotei como "meu" poema o mundo realmente se tornou menos pesado (ou eu fiquei mais forte). Sou a corrida em baixo da chuva mesmo com a sombrinha na mão (porque precisava me sentir viva); sou a saída antes da hora da sala de aula para o lugar onde eu sempre vou quando preciso respirar fundo e sentir o vento no rosto; sou os ataques de riso fora de hora e a mania de falar alto demais quando estou confortável com alguém; sou a tarde de domingo deitada no mato sem falar nada enquanto penso demais; sou a noite de sábado perdida no centro de São Paulo com amigos e amigos de amigos e a razão para naquele dia o moço da mesa ao lado ter cantado sertanejo; sou a filha única; sou o corte em cicatrização; sou os braços cruzados, a cara fechada e as pernas inquietas; sou o olhar inseguro acompanhado das opiniões fortes demais; sou o sarcasmo mesmo que não o queira ser, o ceticismo mesmo quando tento escolher um lado e ainda assim, o amor. O amor a quem fui, a quem sou e a quem quero ser. 

A ideia do Self Image é do Eric que os publica anualmente. No blog você encontra as versões de 20142015 e 2016.