Adulta funcional de baixa manutenção | BEDA #18

Encontrei uma amiga de infância no Instagram. Dos sete aos dez anos, fomos melhores amigas de escola. Frequentávamos a casa uma da outra para brincar e tudo. Resolvi mandar uma DM, dizendo que não acreditava que a tinha encontrado ali, mas nem esperava uma resposta. Em algum momento entre o tudo-bem-e-você-e-o-que-eu-fiz-nos-últimos-20-anos acabamos nos encontrando pessoalmente para assistir O Diabo Veste Prada 2 no cinema. Comentei que eu estava me sentindo como se eu tivesse passado os últimos vinte anos da minha vida em coma e do nada tivesse acordado e saído com ela. Ela gargalhou e disse que estava com a exata mesma sensação. Nos despedimos, ela me colocou nos melhores amigos do Instagram e eu fiz o mesmo. Não uso muito a rede social, então sei que peco nas atualizações da minha vida para as pessoas que estão ali, mas ainda assim, em algum dos únicos posts que fiz nos últimos meses, ela comentou que estava com saudades. Queria me ver mais uma vez. Aceitei, mas tivemos alguns desencontros e ainda não nos vimos de novo. Acho que entre uma coisa e outra já se passou um mês. 

Na faculdade eu fazia parte de um quarteto. Para além do curso em comum, tínhamos histórias de vida parecidas, mesmo que de formas diferentes. Foi a primeira vez na vida em que senti que eu estava completamente conectada às pessoas ao meu redor. Temos uma foto deitados de bruços em um colchão de solteiro com as pernas para o ar, comendo sorvete direto do pote e conversando. Por muito tempo achei que eu sempre poderia voltar para aquela mesma sensação. Achei que nossa amizade ficaria cada vez mais forte. A faculdade acabou, um de nós mudou de país, uma se afastou do grupo por inseguranças próprias, outra começou a namorar... Não nos falamos mais. Eu tentei por anos fortalecer o laço. De certa forma consegui, ainda converso com todos, mas o grupo, em si, morreu. Um dia, desabafando sobre a falta que eles me fazem, ouvi de uma terceira pessoa, não envolvida no grupo em questão, que "Amizade é assim mesmo. A cada momento da vida temos outras prioridades, nos aproximamos de outras pessoas, distanciamos de outras, mas isso não significa que a amizade acabou. Muitas vezes passam-se os anos e voltamos a nos reaproximar das pessoas". Fiquei em silêncio. Todos os amigos que reorganizaram suas prioridades, hoje não sabem mais nada sobre mim. Porque sequer perguntam. 

Crescer sendo filha única foi solitário, mas nunca horrível. Passear comigo mesma, brincar sozinha, tomar atitudes sem considerar tanto outros humores. Ainda hoje acho um pouco engraçado quando vejo na internet discursos sobre "Vá sozinha! Se ame! Faça por você!". Eu nunca tive muita opção. 

Minha amizade mais antiga vem do ensino fundamental II. Nos conhecemos na quinta série (o atual sexto ano) (isso sempre me confunde), e em algum momento as coisas só deram certo. Os anos passaram, ainda mantemos contato, mas sinto que nossa relação é baseada em bastante nostalgia. "Lembra que no ensino fundamental?" "Lembro!" "E no ensino médio que fizemos tal coisa?" "Pois é!!!". Acho que sempre vamos ter uma a outra, mas é como se houvesse um consenso silêncioso de que não iremos nos aprofundar muito no presente. O passado é o laço, e é nele que ficamos. 

Em um dos meus empregos caóticos fiz dois amigos. Nos falamos semanalmente, quase sempre contando nossos causos da área de trabalho que temos em comum. Com o passar dos últimos dois anos, conseguimos em alguns momentos aprofundar nossa relação e compartilhar coisas pessoais. Um dia, bêbada, comentei que eles mudaram minha vida. Eles riram e disseram que eu também mudei a vida deles. Eu estava falando sério. Um dia, por mensagem, um deles me enviou um meme e eu comentei que tinha visto a mesma coisa há uns dias, pensado nele, mas não enviei. Ele me perguntou o porquê, e eu disse que não queria incomodar. "Você nunca me incomoda". Mudou minha vida. Acho que eu ainda não tinha sentido que não estava incomodando meus amigos. Ninguém nunca negou isso. 

A transição do fim da faculdade para o mercado de trabalho doeu bastante. Sempre fiz tudo sozinha, mas por alguns anos tive muitas companhias. Olhares que comunicavam. Frases que se completavam e risadas síncronas. Comentei em uma sessão de terapia recente que eu queria ter apoio, mas sinto que a vida sempre foi sobre me virar. "Mas seria bom ter uma rede de apoio, não seria?", escutei. Engoli o choro e disse que seria. Conversamos sobre a mais recente moda de análise das relações da internet. De tempos em tempos um conceito viraliza e as pessoas realmente o levam pra vida real e justificam quase tudo por ele. As "relações de baixa manutenção" viraram um dos sinais de que você é um adulto funcional (outro conceito que a internet adora, como se a régua que mede a funcionalidade estivesse na porta da casa de todos, e AÍ DE VOCÊ SE NÃO FOR APROVADO NO TESTE). Comentei que sinto que as pessoas só estão justificando egoísmo, falta de compreensão e exaustão com "meus amigos precisam entender minha ausência". Eu nunca vou te cobrar presença. Nunca vou te cobrar mensagens no WhatsApp. Mas eu também não queria que nossa amizade fosse resumida a ter que assistir os reels que você me manda. Ou reagir aos seus stories. Ou ter que ficar registrando minha vida no Instagram pra que você comente e sinta que isso é participar dela. Queria ter com quem sair. Queria criar mais momentos com as pessoas para além do "Lembra quando a gente...". Queria ter sempre um cholchão de solteiro e um pote de sorvete para dividir quando a vida estiver difícil.

Sempre fiz tudo sozinha. Sempre doeu. Sempre continuei fazendo. Não é isso que é ser um adulto funcional? Não é assim que deixamos as pessoas felizes?

Ainda bem que ela se vira sozinha, já pensou eu ter que cumprir meu papel na vida dela ALÉM de trabalhar, cuidar de mim, da casa e de todo o resto? Não dá mais pra ser amigo de ninguém. Já somos adultos!

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