Cortar, suturar, fechar.




Quando escolhi minha (futura) profissão foi por ter facilidade. Facilidade pra manter a calma - minha e dos meus - em situações difíceis, pra dar notícias ruins, pra ver o outro escancarado, pra lidar com o fim da vida sem que isso se tornasse uma memória repetitiva em mim. Eu a escolhi por saber que a vida começa e acaba, e eu poderia ajudar a prolonga-la, mas nunca a eterniza-la, pelo menos não de uma maneira física.

O corte surgiu na segunda-feira, durante a manhã. Notícias ruins chegam sempre, de forma apropriada ou não, e apesar da sua idade, saber da queda não me pareceu naquele momento tão grave. Escutei sua voz ao fundo da ligação, sabia que iriam cuidar de você e naquela conversa em que recebi a notícia, repeti três vezes ou mais que tudo ficaria bem, era só ter paciência e amor. Paciência pra lidar com sua fragilidade, amor pra te sustentar, já que sozinho seria impossível. 

Entre a terça e a quarta o corte sangrava insistentemente. Como todo organismo, o meu se preparou para cicatrizar, mas não completamente. O seu, por outro lado, estabeleceu sua hora e se tornou um corte seco.

Lembro de quando te contei sobre o que definiria meu futuro, e sentado no sofá de frente para o meu, entre garfadas na pizza e conversas, você disse um "Que oficio bom esse que você escolheu, Catiane!" e agora eu sinto muito por justo essa escolha ter falhado com você. Sinto que te devo isso, te devo pelo médico que não soube te ajudar quando esse foi o único juramento feito por ele, sinto que preciso ter mais força ainda para continuar e ser além, ser o que faltou pra você naquela quarta às 12:40.

Você nunca decorou minha idade, eu tinha 10 e sempre precisava dizer que não, não estava mais com 4 anos, mas na penúltima vez que nos vimos, de alguma forma você sabia que eu tinha crescido, segurou minhas mãos e disse que eu era uma moça bonita (limpinha, cheirosa e educada) e que era grande apesar da minha pouca idade. Se eu pudesse trocar meu risinho sem graça por algo, te diria que você era grandioso, muito além de todas as medidas já criadas.

O meu nome quando dito por você se transformava em uma mistura com o nome da minha mãe, o frescor da geladeira era frescura da geladeira, o apresentador rico da TV só vivia de mortadela e por isso estava tão gordo, o silêncio era sempre oportunidade para cantar seu "tchetchetche" e andar de carro com meu pai era perigoso demais.

Hoje eu tenho uma ferida em cicatrização, mas lá na frente, sempre que eu olhar para ela e ver onde cheguei, vou saber quem quero ser por tê-la. Se o corte aconteceu, cabe a mim suturá-lo e fechá-lo.

Em memória de Elias e seus 89 anos de grandiosidade.

Comentários

  1. Seu texto está lindo, e sinto muito pela sua perda, sinto mesmo. Vou evitar falar demais e acabar falando besteira, mas saiba que todos que passam pela nossa vida (e que significam alguma coisa) nos atravessam e fazem parte do que somos hoje. Então esse corte vai ser mais uma parte de você, assim como todas as lembranças boas também :>
    Um beijo bem grande e um abraço bem apertado, Tati!

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  2. Belo texto, Tati.
    Sinto muito, muito, muito por sua perda. Passei por algo parecido em 2015 e, falando pela minha experiência, o corte cicatriza, mas tem horas que dói um pouco. Mas sei que o legado do meu avô vive em mim e, por isso, a memória dele permanece.
    Te desejo muita força e te mando todos os abraços do universo.
    Se quiser e/ou precisar conversar com alguém, pode contar comigo.
    Beijos,
    ~ Michas

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