Always one foot on the ground. | BEDA #08


Eu ainda não tinha escrito nada sobre você. Não até agora.

Não escrevi porque achei estranho como todas as coisas foram simplesmente acontecendo sem que eu tivesse tempo pra assimilar tudo — justo eu, a pessoa que tem a vida toda calculada, desde quantas horas estudar certa matéria até planos pro futuro, sendo eles profissionais ou não — e me vi surpresa por saber que eu tava perto de algo que tinha experimentado antes, mas não dessa forma. Já existiram outras pessoas antes de você, e mesmo quando houve a reciprocidade entre elas e eu, não foi como é agora. Foi sempre no timing errado, quando eu já não estava mais disposta a me doar, quando eu já tinha aguentado o suficiente pra prosseguir. 

Eu achei que era outra vez a hora errada, porque eu tava fechada pra isso, tinha decidido que tava no meu limite e focado todas as minhas energias em outras coisas, mesmo que eu tenha sentido algo o ano passado todo, era diferente. Eu não queria levar aquilo adiante, não queria que saísse absolutamente nada dali (e não saiu, heh), só queria saber de me rodear com pessoas queridas, de ajudar minha mãe, melhorar minha relação com meu pai e estudar. E eu acostumei tanto com isso que foi natural ficar um ano todo sem ter absolutamente nada com ninguém. Não doeu, não me fez solitária ou carente, só me fez bem, porque eu precisava relembrar quem eu era, o que eu queria, quem eram as pessoas que eu queria ou não manter por perto, e só eu e amigos muito íntimos sabem como eu melhorei nesse tempo em muitas coisas. Mas todas essas melhoras foram exclusivamente pra mim, eu queria encontrar de novo a pessoa que eu era lá em 2012, antes do relacionamento exaustivo e dos amigos se afastando enquanto me avisavam que eu tinha mudado de uma maneira não muito boa. 

Até agora eu não escrevi nada sobre você. E eu sei que já falei isso, mas gosto de reforçar porque é um bom sinal: eu ainda não tinha escrito nada sobre você. Eu tava vivendo, tava me permitindo, pelo menos dessa vez. Não tava me escondendo apesar de muito ter tentado. Não tava fugindo apesar de ter cogitado fazê-lo por três dias seguidos — e não o fiz porque mesmo que a racionalidade grite que sentimentos não são bem vindos nesse corpo no fundo eu sei que é só uma tentativa de me defender, mas nem eu sei do quê, o que me motiva a continuar. Eu não tinha escrito nada sobre você porque pela primeira vez em muito tempo eu não precisava pensar e pensar e pensar e pensar mais uma vez até decidir que fico melhor sozinha. Você me faz sentir de uma forma diferente. É gradativo, é tijolo por tijolo, é uma troca, onde eu sei que posso falar e até agora não precisei aguentar nada quieta. E por mais que eu fale pra todo mundo que tô tranquila, e por mais que a minha mãe se preocupe e fale que vai me levar no psicólogo porque até ela te acha alguém especial enquanto eu digo que tô indo devagar, no fundo, no fundo, eu me assusto. Não por estar outra vez sentindo, não por saber (e saber é muito diferente de acreditar) (e vai demorar pra eu acreditar) que você também sente, mas me assusto com a possibilidade de o meu jeito diferente do seu te afastar, porque apesar de todo o um ano me dedicando a mim mesma e as minhas melhoras como pessoa, ainda é difícil enxergar o que te mantém por perto.

Quando eu te olhei pela primeira vez te achei bonito, mas foi só. Quando eu te beijei pela primeira vez achei bom, mas foi só. Quando a gente conversou por mensagem pela primeira vez eu não consegui achar absolutamente nada. Quando te encontrei pela primeira vez gostei de ter passado a tarde com você, mas foi só. E eu só fui mesmo entender como as coisas estavam indo quando te vi do outro lado da rua prestes a me encontrar e senti a barriga gelar um pouco. Ou enquanto você cozinhava e parava pra me abraçar e beijar. Ou de quando eu ainda tava brava, e por mais que eu tenha me fechado naquele dia, ainda assim senti a coisinha estranha na barriga quando você sorriu me vendo subir a escada rolante. 

E eu ainda não tinha escrito nada sobre você. 

Porque eu tava vivendo tudo isso.

Comentários

  1. Amiga :( Só de colocar essa música no título já me partiu o coração

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  2. Que texto mais lindoooooooo!!! Esses parágrafos finais = <3!!!

    Vou imprimir e colar pela casa aqui, pera...

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  3. o texto e a música se encaixaram tão bem! amei ♥

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  4. VIVA MAIS
    mas é tão gostoso escrever sobre o que a gente vive. é curioso como a gente pára de desabafar tudo em textos quando a vida toma nosso tempo, especialmente quando é pra viver algo delícia. Eu já levei uns tapas aí na cara pra sugerir que ce tire os dois pés do chão, mas pode deixar um flutuando onde ele merece estar. Sair do chão é mto bom tbm, amiga <3

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  5. puta que pariu, que coisa linda.
    só sente e se joga. isso é uma das melhores sensação do mundo. apesar do medo, que é super compreensível, só continuar se permitindo viver e sentir. isso aí é uma das coisas que mais vale a pena estar viva.

    pale september

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