Melhor do que parece 1/4. | BEDA #07


Eu ando muito insatisfeito
Nada me agrada mais
Eu não consigo ouvir um disco
Ou ver um filme e 
Um livro eu claramente não vou ler

Era uma reta com um fim predestinado, mas alguém apagou um traço e desenhou uma continuação um pouco pra fora. Não tão fora a ponto de sair do papel, entende? Só não deveria ser daquele jeito. No canto da mesa arrumei um lápis, muito maior que eu, desses com borracha na ponta contrária ao grafite, e tentei segurá-lo com a borracha sobre o papel até apagá-lo e desenhar a mesma reta outra vez. Não deu, o lápis entortou, a ponta quebrou, o grafite borrou, e a linha que já era torta se tornou um desenho abstrato. Agora a borracha que antes era branca ficou manchada pelo grafite e não consegue apagar sem deixar rastros pela folha. O apontador também é grande e não sei como posso segurá-lo ao mesmo tempo em que aponto o lápis.

Sentei em cima da folha e fiquei ali, olhando toda aquela sujeira. Lembrei daquela vez na terapia, quando eu ainda tinha meu tamanho normal, em que a psicóloga me disse que o que mais importa é o caminho e não como chegamos lá, e que ele tem altos e baixos pra todo mundo, mas que no fim nós somos o que ele nos fez. Na teoria é tudo muito bonito, mas bem chato quando é você quem precisa lidar com. 

Você deve estar se perguntando como fiquei do mesmo tamanho que um lápis. Mais baixa até. Posso garantir que não fui cobaia de nenhum experimento científico, e essa história seria muito mais interessante se o seu enredo fosse esse. Na verdade nem eu sei te dizer quando isso começou. Sei que eu era grande, assim, igual a você. Mas o tempo foi passando, e cada vez que algo saia do controle eu não sabia apagar e recomeçar o desenho. Amassava a folha transformando-a em uma bolinha inofensiva e a deixava no fundo da mochila que carregava nas costas. Em dois anos consegui uma mochila cheia. Algumas dores nos ombros, que passaram pras costas, se tornaram uma má postura, e a cada dia que passava eu ficava mais e mais encurvada.

Eu podia ter tirado a mochila, ou ter jogado todas aquelas folhas em algum outro lugar. Mas é difícil, sabe? Não foi difícil procurar outras pessoas pra tentar dividir aqueles papéis comigo, pelo contrário, eu fiz isso, eu li Amanda Palmer, né cara? Mas já que citei a própria, ela mesma fala em seu livro que quando pedimos ajuda, também temos que aceitar o não. Essa foi a parte responsável por me deixar pequena assim. Pedi ajuda pra todo mundo que eu carregava alguns de seus papeis junto com os meus, e encontrei o silêncio. Nem um post-it do mais pequeno eles queriam carregar. Coloquei tudo na mochila de volta e pensei "Bom, eu posso lidar com isso". Errei, e feio, eu não podia lidar com aquilo, não quando carreguei por tanto tempo os caminhos mal feitos deles. Não custava muito ter ligado nossas retas, custava?

Continuei, já que não tinha muito o que fazer. Cada papelzinho de bala que encontrava no caminho, guardava na mochila. Comecei a ficar mais e mais pequena até ninguém me ver. Até eu não me ver mais. E aqui estou. Sentada em várias folhas que eu mesma carreguei esse tempo todo, olhando em volta e me perguntando como é que tudo ficou desse jeito.

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*Melhor do que Parece faz parte de uma série de 4 posts semanais, baseada na música de mesmo nome  da banda O Terno. 

Comentários

  1. tive que correr pra ouvir a música rs
    nossa sabe aqueles textos que seus olhos simplesmente vão, sem esforço, sem forçar, muito bom mesmo.

    Blog Entre Ver e Viver

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  2. Nossa <3 tem um olho na minha lagrima. Amei o texto, fui carregada pelas palavras, de ponto a ponto, virgula por virgula, até o ponto final. Dei um suspiro profundo. Eu também gostaria de entender como tudo ficou desse jeito.


    coffeeandwrite.blogspot.com

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  3. É nóis 100% nesse negócio de não saber dizer não, amiga. To esperando as outras continuações desse texto pra saber COMO LHE DAR com isso e como faz pra gente crescer de novo. <3

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