11 abril 2018

O dia em que ler um YA foi problemático.


Quando minha mente está muito sobrecarregada, perco o interesse por livros -- e fico ainda mais sobrecarregada por não estar lendo porque é assim que eu funciono, na base da tortura mental --, não é de hoje que quando isso acontece e consigo voltar a ler algo, sempre são os quentinhos e confortáveis young adults. Foi assim que me deparei com Duff*, da autora Kody Keplinger.

D.u.f.f é a sigla que abrevia o apelido "designated ugly fat friend", termo pejorativo utilizado não necessariamente quando a pessoa tem as características já citadas, mas quando em um grupo de amigos é a menos popular ou atraente. São muitos os problemas estampados na sigla, desde a associação do gordo ao que é feio até ao fato de ser atribuído como uma forma de desclassificar alguém. Mesmo assim, até então, nenhum problema em esse ser o nome do livro, afinal ele poderia tratar o assunto de uma forma consciente.


A história gira em torno da personagem Bianca Piper, que no colegial está feliz com suas duas melhores amigas, até o momento em que descobre ser vista como a duff do trio e as coisas passam a desandar. Toda a problemática do livro poderia estar só em outros fatores, mas a própria Bianca é uma questão ao ser misógina quando fala sobre o comportamento de outras garotas, e se coloca acima delas por não ser da mesma forma, chegando a confundir ser feminista com a falta da feminilidade.


“Se eu não estivesse tão nervosa por causa do encontro, teria ficado horrorizada por ver minhas convicções feministas sendo atacadas por todo aquele embonecamento e pela animação delas.



A personagem, como exemplificado pelas citações abaixo, também se esquiva dos problemas e do autoconhecimento por meio das suas relações com garotos, chegando até a aceitar os tratamentos que recebe. 


“´[...] ele já sabia que eu era uma Duff, e eu não precisava impressioná-lo.”


"Eu tinha apenas catorze anos quando perdi a virgindade com Jake Gaither. Ele tinha acabado de fazer dezoito, e eu sabia perfeitamente que era velho demais para mim. Mesmo assim, era uma caloura no ensino médio, e só queria um namorado. Queria que gostassem de mim e queria me integrar, e Jake era um veterano com carro.”

Os pontos problemáticos continuam com outras personagens, mostrando cada vez mais como cada uma das questões estão naturalmente inseridas na sociedade, e não em apenas uma pessoa, como foi o caso do diálogo a seguir entre três garotas a respeito do corpo feminino:

“— Ele vai pra cama com todo mundo — retruquei, entrando com o carro na rua 5. — Se ela tiver uma vagina, ele vai fazer sexo com ela.
— Eca! Bianca! — gritou Jessica. — Não diga a... Palavra com V.
— Vagina, vagina, vagina — disse Casey sem rodeios. — Supere, Jess. Você tem uma. Você pode chamá-la pelo nome.
As bochechas de Jessica ficaram da cor de tomates.
 — Não é preciso falar disso. É grosseiro e... Intimo demais.”

É claro que são todas questões que ninguém nasce já sabendo e que o conhecimento sobre vem com o tempo, mas ver tudo isso em um livro pra garotas adolescentes se tornou um problema porque muitas vão se identificar e em momento algum a autora se preocupou em mostrar um outro lado que não fosse um garoto -- que inclusive, é quem conta pra Bianca que ela é uma duff, reforçando a velha história de que tratar mal uma garota irá conquistá-la -- como a salvação pra tudo. E foi assim que um livro escolhido para me tirar da penumbra, deixou meus neurônios completamente adoidados.

“Era um desses rótulos que se alimentavam dos medos secretos que todas as meninas têm de tempos em tempos.”

*O livro foi adaptado para um filme de mesmo nome, mas o enredo é completamente diferente. A única coisa em comum são os nomes dos personagens e o conceito de duff utilizado. 

4 comentários

  1. É péssimo quando vamos nos desconstruindo e coisas que antes passariam despercebidas, agora nos incomodam. Mas também é bom, pois mostra que estamos mudadas e não aceitamos mais o que antes deixávamos passar.
    Que pena o livro ser assim.

    do cristal

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  2. Já tem um tempo que perdi a paciência de ler YA porque as coisas começaram a ficar repetitivas demais e também porque não consigo me sentir contemplada mais pelos assuntos que são abordados.

    Eu assisti o filme com minha amiga e, realmente, pelo que você descreve, o tom da narrativa no livro parece muito pior. SOS. Como os escritores, tendo TANTA VOZ, não tomam cuidado com o público e com as questões sociais na hora de escrever? Cadê a responsabilidade? Força, viu, Tati. Porque geralmente quando termino um livro desse tipo eu fico PICADA de raiva HAHAHAHA
    Mas foi bom você ter alertado aqui sobre o desserviço que tá sendo esse livro!

    Beijos :3

    http://pinkismycollor.wordpress.com

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  3. que bom que você avisou, né? a vida já desgraça a nossa cabeça com pensamentos como esse ainda em boa parte das pessoas, não precisamos passar raiva com um livro, né?
    eu teria rasgado ele em pedacinhos hahaha

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  4. Simmm, me sinto exatamente assim quanto a livros quando estou sobrecarregada! Fico cheia de culpa também.
    Eu morreria sem saber que esse filme vinha de um livro. O assisti e não nego, até gostei bastante. Não havia visto por esse segundo ângulo; talvez o filme estivesse mais disfarçado quanto a essas questões. O livro soa asqueroso e provavelmente se eu revisse o filme, ficaria puta com esses erros horrendos. É sempre bom atentar-se a esse tipo de coisa, principalmente quando o que lemos e vemos nos influencia tanto e mexe tanto com nossa mente. Post maravilhoso! Eu jamais teria tido essa percepção, de tão acostumadas que estamos a levar e naturalizar determinados clichês ridículos.

    um beijo,
    acid-baby.blogspot.com

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