29 julho 2018

Projeto "Rata de Biblioteca".



Os algoritmos que movem a internet muitas vezes nos dão impressões erradas sobre a realidade. Se você lê esse blog, provavelmente está inserido(a) em um grupo de pessoas que de alguma forma consomem literatura, apesar de estarmos em um país que comprovadamente não possui uma população leitora, como mostra a pesquisa “Retrato da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, responsável por mostrar que 44% das pessoas não leem no tempo livre e 30% delas nunca comprou um livro. Porém, como as redes sociais tem cada vez mais selecionado o conteúdo que chega até nós com base em pesquisas e interesses, a impressão que temos ao acompanhar blogs, canais no Youtube e até perfis no Instagram, é que todos estão constantemente não apenas lendo, como também investindo dinheiro em livros como objetos de decoração para suas casas.

Inseridos nessa bolha de ávidos leitores que habitam a internet, muitas vezes não nos questionamos sobre os modos de consumir a literatura, e sobre quem são as pessoas que de alguma forma ainda movem o tão escasso mercado editorial brasileiro. Não é a primeira vez que dentro desse grupo de pessoas que tem acesso à leitura, surge o debate sobre a pirataria de livros. Realmente existe um déficit para autores e editoras devido à pirataria de ebooks em formato pdf na internet, mas o que muito me incomoda nisso tudo, é o tom que a discussão passa a ter quando pessoas com renda suficiente para investir em livros em um país como o nosso, onde as taxas de desemprego são altas, além do valor que possui o salário mínimo – responsável, vale salientar, por alimentar e pagar todas as contas de quem o recebe – criticam o lado que precisa – e aqui eu grifo o verbo precisar pra deixar bem claro que o ponto do meu texto é quem só consegue ler por meio do pdf, se você de fato tem renda pra investir em entretenimento e mesmo assim prefere piratear, entramos em uma discussão com a qual não quero me envolver –, utilizar esse método para ler.

Entre todos os argumentos utilizados na discussão, muito se falou sobre as bibliotecas e a possibilidade de ler livros gratuitamente sem precisar piratear (e eu tenho algumas questões com esse lado, porque realmente bibliotecas são ótimas, mas: 1. O livro que está na biblioteca foi comprado apenas uma vez e repassado pra frente sem que o autor ou a editora recebesse cada vez que ele é lido, assim como é com o caso dos pdf’s, já que alguém em algum momento comprou aquele ebook e depois repassou, mas quem sou eu para dizer isso, não é mesmo?, e 2. As mesmas pessoas que apontam as bibliotecas como alternativa estão todo mês recebendo livros sem custo algum de editoras, parcerias, caixa postal, mostrando estantes pessoais cheias de livros, muitas vezes com mais de uma edição da mesma obra por puro capricho, e bom, não doando nenhum deles para bibliotecas porque o ato de obter livros tem sido muito mais gratificante do que o de lê-los, mas reitero: quem sou eu para dizer isso, não é?), mas nada se faz para que haja o incentivo em visitar e consumir o que guardam as bibliotecas.

Antes de eu de fato me interessar por bibliotecas, o contato que tinha com elas era bem pequeno, e de certa forma um privilégio, já que eu estudava em uma escola que mesmo pública, possuía um acervo de livros disponível para os alunos. Quando terminei a escola, achei que as bibliotecas públicas fossem bem diferentes do que encontrei, imaginava-as como lugares velhos demais, abandonados, e com livros que não interessavam a ninguém. Bom, me enganei.

Porém, sei que teria ficado no achismo se não tivesse sido apresentada da forma correta ao acervo gratuito de livros e com toda certeza leria muito menos do que atualmente. Por isso, ao invés de ditar quem pode ou não ler, preferi optar por outro caminho, e hoje inicio aqui no blog o projeto “Rata de Biblioteca”, porque não consegui pensar em um nome melhor.


*:・゚✧*:・゚✧ O que é? *:・゚✧*:・゚✧


Como muito do que leio vem de bibliotecas, decidi usar esse espaço que tenho na internet para promovê-las falando sobre os livros que pego e tentando de alguma forma, mostrar que nelas existem muitos livros legais e inesperados. É a maneira que encontrei de promover a literatura sem entrar na mesma falácia comercial, e muitas vezes elitista, que vemos por ai.


*:・゚✧*:・゚✧ Como vai ser? *:・゚✧*:・゚✧


Não consigo planejar dias certos para as postagens, mas sempre que eu terminar alguma leitura vinda de biblioteca vou postar aqui e no Instagram do projeto (@rbiblioteca) sobre o que falam os livros e como foi a experiência de lê-los. Lá no Instagram também pretendo utilizar as ferramentas do stories e do IGTV para conversar durante as leituras.

O hábito de ler é algo que consome tempo e energia, além de ser muito solitário e pouco incentivado, mas se com esse projeto eu conseguir chamar atenção de pelo menos uma pessoa para o mundo da literatura sem precisar entrar naquele debate privilegiado que a grande bolha literária costuma cair, já vou estar feliz. Espero que gostem, sigam o Instagram e me ajudem nessa. Quem sabe mais pra frente isso não se torne algo bem maior?



P.S: “Mas é só separar um dinheirinho que dá pra comprar um livro por mês”, que bom que na sua casa isso é possível, mas na minha e na de muitos outros brasileiros gastar dinheiro com entretenimento é um luxo.
“O Kindle Unlimited é baratinho”, o que é barato pra você, pode não ser pro outro.
“Eu compro livros com o dinheiro que nem tenho”, se tá comprando é porque tem sim.
PAZ.

17 comentários

  1. Preciso dizer que, entendo toda questão, dos autores, editora e tal. Mas sou parte do público que, ou lê os pdf's da vida ou simplesmente não lê, salvo algumas exceções. Não dá, não cabe no orçamento, pesaria em algo realmente mais essencial. E muito do que me tornei devo a leitura, mas infelizmente pouco paguei de fato por ela. Quem sabe um dia.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu te entendo perfeitamente, é o mesmo caso que o meu. Não acho que a leitura deveria ser um privilégio de poucos como é...

      Excluir
  2. Amei! Sua defesa de que nem todos podem comprar livros ou e-books é muito a realidade de milhares de brasileiros, jovens e adultos. Seu projeto é muito bom e já estou seguindo no Instagram, espero muito que você vá em frente com ele e que esse projeto incentive outros. Até me deu vontade aqui também, mas infelizmente não estou com tempo quase nenhum pras leituras que não as acadêmicas :( Mas quem sabe... Uma coisa podes ter certeza, seu projeto é inspirador e já me despertou uma vontade de visitar aquela biblioteca de bairro que eu nunca mais fui, onde eu iniciei a leitura de muitos livros que hoje são meus favoritos! ❤️

    ResponderExcluir
  3. Achei uma ótima ideia!! Gostei principalmente das suas respostas do fim do post kkkk

    ResponderExcluir
  4. Acho muito legal seu projeto! Passei minha adolescência na biblioteca e só recentemente consegui comprar livros que eu quero sem me preocupar.
    Infelizmente essa discussão não tem certo e errado. Acompanhei esses dias no twitter e entendo os dois lados. Ainda sinto que grande parte da pirataria é feita por pessoas que de fato não precisam fazer isso e acabam prejudicando muito autores - principalmente nacionais. Ai você acaba roubando de uma pessoa que talvez use aquele dinheiro para sustentar a família também.
    Acho que muitas pessoas tem dificuldade em ver arquivos digitais como produtos, porque mesmo querendo consumir, ninguém entraria na saraiva, colocaria o livro no bolso e iria embora. Mesmo com ebook, a gente compra a capa, folhas, diagramação, mas não o "conteúdo".. Acho que acaba sendo uma ideia um pouco abstrata.
    Ao mesmo tempo sou a primeira a falar que sim, o preço dos livros é enorme para algumas pessoas. Não é tão simples como "guardar um pouco" ou "pagar kindle unlimited". Eu mesma não poderia arcar com isso na minha adolescência.
    Não tem lado certo e errado, infelizmente é uma discussão muito complexa. Mas é um ótimo incentivo esse seu. Aliás, aqui em SP dá para pesquisar os livros das bibliotecas pelo site e dá para ver que não é tudo livro velho e cheio de poeira.

    ResponderExcluir
  5. Achei muito interessante e importante o seu projeto.
    O seu texto me lembrou muito um vídeo do Neil Gaiman falando sobre pirataria. A uns anos o Ziraldo queria que o livro entrasse na cesta básica, mas não foi para frente.
    Eu realmente acho que se todos tivessem a possibilidade de ler, alguns não iriam querer. Mas seria uma escolha, diferente do que é hoje.
    Muitos falam que a literatura é importante e tal, mas ela não é incentivada. Ao contrário é elitizada. "Só pessoas inteligentes leem", "Esse livro é difícil de ler", "Ler não é diversão". São coisas que escutamos com frequência e que afasta muita gente que poderia gostar de ler.
    Estou aqui na torcida pelo seu projeto.
    Até mais

    Apartamento 29

    ResponderExcluir
  6. Olha, eu tenho um problema muito sério com a compra de livros. Cerca de 60% dos livros que eu comprei, eu não consegui terminar por conta da minha dificuldade em manter a disciplina. Por isso, comprar livro pra mim, por mais que eu tenha condições financeiras, é jogar dinheiro fora, uma vez que raramente consigo lê-los. Por isso, prefiro mil vezes piratear, sim, para depois comprar o título que eu tanto gostei. Esse é o caso da maioria dos outros 40% dos livros na minha estante. Então pra mim nunca vai colar essa história de não baixar livro, porque eu realmente não quero mais gastar 50 reais num livro que eu nunca vou terminar. Deixa eu terminar antes, se eu gostar, eu compro, porque eita obra boa!

    Emprestar de biblioteca pra mim também não rola muito, porque é só botar um prazo na minha frente que a procrastinação começa — mesmo que seja lazer.

    Por fim, também tenho uma preferência pela leitura eletrônica. Poderia até comprar os ebooks, mas, sinceramente, se for pra comprar, prefiro o físico. Atualmente eu tô fazendo de tudo pra comprar só o que gosto e não mais gastar dinheiro com livros que jamais lerei. Podem ficar de mimimi, podem me criticar, mas eu funciono assim, e não tenho a intenção de mudar para satisfazer um mercado que nos esmaga com preços avassaladores — ainda que eu esteja ajudando o autor nessa história toda. Todo mundo sabe que o autor recebe só uma parte pequena do preço, não é mesmo?

    Enfim, adorei a ideia de projeto. Tomara que faça efeito!

    Beijinhos. ♥

    ResponderExcluir
  7. achei demais o projeto, tay! confesso que se eu der uma apertada até consigo comprar um livro aqui e ali mas as vezes não dá, né? então eu vou atrás dos pdf's mesmo, até porque como passo metade do dia na rua, carregar um livro pesado consigo fica difícil, eu sempre curti demais bibliotecas, lembro de uma linda do meu colégio em curitiba e eu tinha meus 5,6 anos. aqui na minha cidade tem uma grande e nos meus anos de colégio eu realmente aproveitei ela bastante, hoje em dia apareço lá mais para trabalhar por ser um local mais silencioso

    já segui e tô pronta pra acompanhar esse projeto tão legal

    rayASNNES

    ResponderExcluir
  8. Que projeto MARAVILHOSO! Ai, quero abraçar essa postagem! Estou roendo unhas aqui querendo acompanhar loucamente.

    semquases.com

    ResponderExcluir
  9. Adorei a forma como você defendeu seu ponto de vista e adorei mais ainda a sua iniciativa de criar um projeto de leitura. Descobri seu blog recentemente e estou apaixonada por ele, me inscrevi para não perder nenhum post.

    Blog Covil Dourado | Facebook

    ResponderExcluir
  10. hm... isso de pireater livros..
    Eu tenho 15 anos, ninguém me deu um emprego como jovem aprendiz, se eu não trabalhar assim minha mãe vai presa, e por falar nela, ela não compra nenhum livro pra mim, porque os livros hoje em dias estão mais caros que o normal, e mesmo que os e-books sejam mais baratos que livros físicos; ha; minha mãe não compra nada na internet, porque ela têm medo. Medo que aumenta junto com as notícias do perigo de compras online...
    Na minha escola só tem livro velho e só chega livro velho e usado, todos com capa estragada e geralmente são de assuntos políticos, não young adult ou coisa assim. Já peguei livros emprestados de colegas, mas eles estão na mesma que a minha, então na verdade nem temos mais livros para emprestar uns aos outros.
    E é a mesma coisa com filmes e softwares de computador. Ou eu crakeio o Word ou eu não tenho programa pra fazer capa de trabalho escolar.
    E pra eu chegar na biblioteca mais próxima da casa é preciso pegar um ônibus que custa 5,80. Parece pouco, mas tenta convencer minha mãe...
    Eu toda vida gostei de ler, ninguém nunca me motivou (inclusive, minha mãe é 100% contra, por causa de $$$).
    Achei o projeto muitíssimo interessante, mas com certeza não daria pra fazer na biblioteca da minha escola... O que mais têm lá são uns livros feitos em 1.900 e tanto de uma gente brasileira que, sinceramente, não consigo gostar. E livros aleatórios de Filosofia e coisas de comunismo. Não dá.
    Mas até que nem leio tanto livros em PDF, rs.
    #Cookie Jar

    ResponderExcluir
  11. Demais a ideia do projeto, Tati! Eu super entendo o lado dos autores/editoras, mas também entendo o lado de quem não pode (como você disse, quem não pode MESMO) gastar R$40,00 num livro porque de fato é uma quantia parece pouco mas que faz uma baita diferença na vida da gente que precisa, né? Achei incrível a ideia do projeto, eu mesma já encontrei muitos livros interessantes na biblioteca da minha cidade e é triste que pouquíssima gente visite o lugar.
    Um beijão,
    Gabs | likegabs.blogspot.com ❥

    ResponderExcluir
  12. Gostei desse projeto. Também não tenho dinheiro para comprar um livro por mês e as bibliotecas são ótimas opções mesmo.
    Beijos

    ResponderExcluir
  13. eu amei! moro no centro de são paulo e a biblioteca mais próxima de mim é a mário de andrade que diga-se de passagem, é ótima e 24h, o que as pessoas deveriam divulgar, mas não divulgam. infelizmente, não consegui pegar muitos livros lá desde que fiz a carteirinha porque não compensa. exatamente por ter a sorte de poder comprar, pelo menos, um livro por mês prefiro pagar pelo que consumo, seja no kindle ou físico e ajudar da forma que dá, mas sei e conheço gente que não pode então essa série vai ser ótima e ainda vou compartilhar com amigas. ansiosa!

    www.paleseptember.com

    ResponderExcluir
  14. Bem, eu sou bibliotecária (desempregada mas eu sou) então eu fico muito feliz em ver esse projeto, espero que outros copiem a ideia ^^.
    Quanto ao seu ponto de que "O livro que está na biblioteca foi comprado apenas uma vez e repassado pra frente sem que o autor ou a editora recebesse cada vez que ele é lido, assim como é com o caso dos pdf’s", bem, a maior parte dos livros que chegam às bibliotecas públicas ultimamente são doações porque nem mesmo as bibliotecas conseguem bancar o custo de aquisição de livros suficientes pra atender à demanda. Então sim, o autor deveria receber um pagamento mais justo, mas a biblioteca também é uma vítma da situação. O que eu acho (e também se fala sobre isso em muitos estudos) é que o problema é com as editoras, porque o autor recebe uma porcentagem mínima, em algumas editoras eles nem sequer são pagos em dinheiro (sério), mas mesmo assim os livros custam tão caro que se tornam quase um item de luxo. Meu estágio foi numa biblioteca universitária, e eu lembro de um caso de um aluno que fez a solicitação de um livro que ele precisava pra concluir o trabalho de doutorado dele, e a compra foi vetada porque só era possível comprar na editora e o bendito era caríssimo; parte do meu trabalho era justamente descobrir se tinha algum outro meio de encontrar esse livro pra ele, nem que fosse pegando emprestado de outra biblioteca (sim é possível fazer isso) mas não encontramos em nenhuma justamente por causa do custo. Parece até mentira no final das contas era mais fácil o estudante pegar um voo pra consultar o livro que ele precisava na Library of Congress do que comprar um no Brasil. É claro que nem toda editora faz isso, e que um livro todo bonitinho com capa dura, decorada e papel especial vai ter um alto custo de impressão, mas ainda assim eu acho que a maior parcela da "culpa" vai pras editoras.

    Martina

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu tinha uma noçãozinha básica do que existe por trás das editoras, mas nossa, seu comentário ajudou muito! Infelizmente enquanto a maior preocupação foi o lucro delas, a literatura vai tender a ser mais elitista :(

      Excluir
  15. Eu quero participar do seu projeto! Como faço?
    Esses últimos meses mesmo tenho pego livros da biblioteca da faculdade pra ler e percebi que a maioria das pessoas da UFABC acabam nem lembrando que tem coisas de literatura lá.

    abraços,
    nanda
    do Not to Disappear (antiga Nandalandia)

    ResponderExcluir

-Spam não são publicados.
-Costumo responder todos os comentários no blog de quem os faz, se você estiver em anônimo, volte ao post em que comentou que responderei no mesmo.
-Obrigada por visitar <3

© Limonada.
Maira Gall