Coração, Cabeça e Estômago, livro do português Camilo Castelo Branco, é uma obra publicada em 1862, atualmente requerida como leitura obrigatória pelo vestibular da Unicamp, e foi meu escolhido para ser o primeiro da Maratona Literária de Inverno 2017, com isso, além de já saber do que se trata caso o mesmo seja cobrado em alguma questão da prova, consegui cumprir o 8º desafio: ler um livro com pontuação no título.
Tudo se inicia com a notícia sobre a morte de Silvestre, um escritor. Antes de partir, Silvestre decidiu enviar tudo o que escreveu ao longo dos anos para um amigo, sendo assim publicado um livro autobiográfico póstumo, no caso, Coração, Cabeça e Estômago. Têm-se então, um livro dentro de outro livro (metalinguagem, com presença de dois narradores, sendo Silvestre o que participa das ações e seu amigo, encarregado de sua obra póstuma, o editor que apenas conversa com o leitor por meio de adendos que não revelam sua presença nos acontecimentos). A obra, como já intitulada, é dividida em 3 partes: coração, cabeça e estômago, em que cada uma das três partes do corpo é responsável pelos acontecimentos na vida do personagem. Outro ponto interessante, é o fato de todo o enredo da história, apesar de considerada parte do período romântico português, ter um óbvio tom de sátira ao Romantismo, colocando o falecido Silvestre em situações cômicas ao longo do enredo para se sentir parte dos ideais da época -- como por exemplo, pintar olheiras com tinta roxa depois de ser rejeitado pelas mulheres que desejava, deixar os cabelos despenteados, e se obrigar a sofrer por algo que na verdade, não o tocou. É na primeira parte, o coração, em que conhecemos as sete mulheres apontadas por Silvestre da Silva como seus desastres amorosos.
“Amei as primeiras sete mulheres que vi e que me viram.”
“Se queres mulheres para romances e prosas, pede-as à tua imaginação e deixa o mundo real como ele está, que não pode ser melhor.”
“Eu carecia de uma paixão que me sacudisse pelos cabelos, uma paixão que me levasse de inferno em inferno, que me empinasse ao apogeu da glória, ou me despenhasse na voragem da morte. Precisava disto, porque não tinha que fazer, e gozava robusta saúde…”
O (anti)romantismo já é observado na forma como as mulheres são descritas -- fugindo do enaltecimento e da angelicalidade sempre tão destacas no Romantismo. "[...] ali a temos prostrada numa otomana, com olheiras a revelar o cavalo do rosto, com a cintura a desarticular-se dos seus engonços, com as mãos translúcidas de magreza, os braços em osso nu e os olhos apagados nas órbitas, orvalhadas de lágrimas."
A segunda parte, representada pela cabeça, é quando o personagem após suas desilusões decide reger a própria vida com mais racionalidade em busca da ascensão social por meio da sua carreira jornalística. Coisas acontecem, erros são cometidos, e nem a racionalidade é capaz de satisfazer Silvestre. Assim inicia-se a terceira parte, nomeada estômago, quando as idealizações amorosas, financeiras, sociais dão lugar a um ser mais disposto a aceitar o que estiver dentro da sua realidade. É nela em que vemos Silvestre se mudar para o campo, iniciar uma carreira política, e se casar. Por fim, é contada a sua morte, curiosamente causada por excesso de comida -- o que para a época, em que o sistema capitalista estava sendo instaurado por toda a Europa, pode ser interpretado como uma crítica ao acúmulo material.
Se eu pudesse resumir todo o livro em um único gif:
Não foi uma leitura muito prazerosa, por eu não ter gostado muito da fase cabeça, que me pareceu muita enrolação para nada (mas quem sou eu para julgar a vida de Silvestre), mas mesmo assim, me rendeu boas risadas em diversos momentos.
Nota:
*É comum a comparação entre Silvestre e Brás Cubas, personagem de Machado de Assis.





