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Escrevi um troço

Dia desses um amigo mandou, em um grupo no WhatsApp, uma foto em que estávamos reunidos, lá no ano de 2017. Nela eu tenho 10 kg a menos, um cabelo 50% mais comprido (além de alisado pela chapinha), nenhuma matricula realizada em uma universidade, e provavelmente uma mente mais saudável, porque é exatamente o último ano que tenho a lembrança de não estar o tempo todo com muita raiva de tudo, de todos, e extremamente triste, sem conseguir entender que ficar tão triste o tempo todo poderia ser um indicativo de que algo de errado não estava muito certo. 


Depois de ver a tal foto entrei num looping de nostalgia. Das roupas que eu gostava de vestir (e de como eu me importava bem menos com a possibilidade de alguém me achar estranha por estar com tal roupa), e de como hoje em dia, pra mim, é mil vezes mais fácil só vestir camiseta e calça jeans, não importa qual seja o objetivo da ocasião; das músicas que eu ouvia; das séries que assistia; de como eu amava andar pela cidade e fotografá-la mesmo que com enquadramentos tortos; de como o ar parecia mais leve para ser respirado sem uma máscara cobrindo metade do meu rosto.


Não sei dizer muito bem se em algum momento parei de ser eu mesma, se estou no período em que mudei de gostos e ainda não encontrei exatamente aquele que mais me representa no agora, mas sei que pensar em quatro anos atrás e no presente me deixou surpresa. Jamais imaginei estar onde estou, como estou, e da forma que sou. O primeiro semestre de 2021 serviu muito como meu processo de cura, já que foi quando eu finalmente entendi que todos aqueles sentimentos em mim, sempre tão negativos, não estavam me fazendo bem e realmente pedi ajuda. Porém, ainda assim, sinto que não o atravessei completamente. Estou melhor, mas ainda não sei bem quem sou e do que gosto nesse novo encontro do eu comigo mesma. 

A Million Little Things: a importância de se falar sobre suicídio de forma responsável na TV



A Million Little Things, série que no Brasil está inclusa no serviço de assinatura da GloboPlay, é uma produção da ABC Studios de 2018, criada por DJ Nash. O enredo, desde o primeiro episódio, gira em torno de um tema que mesmo com as constantes tentativas de torná-lo mais discutido pela população, ainda é camuflado por medos e pré-conceitos: o suicídio. 


Atualmente na segunda temporada, com renovação para a terceira já confirmada, a série de drama leve, além de tocar onde quase ninguém tem coragem, consegue o fazer de forma muito responsável. Nela, conhecemos um grupo de amigos que se uniu por acaso, e que agora precisa lidar com a grande perda de um dos seus membros após sua morte inesperada. Além disso, cada personagem tem seus problemas pessoais aprofundados ao longo dos episódios, o que torna a série muito real.


Se algumas produções que retratam o tema costumam falhar ao colocá-lo como única possibilidade de melhora para quem está em sofrimento, A Million Little Things não têm o mesmo problema. Enquanto o primeiro episódio se inicia com a possibilidade de um dos protagonistas optar pelo suicídio, seu término, com a consumação do ato por outro personagem, leva o primeiro a não realiza-lo ao receber a noticia, e a, por fim, comunicar as pessoas próximas sobre como tem se sentido, e, no decorrer da série, buscar ajuda adequada de profissionais. 


Frequentemente comparada a This is Us, da NBC, pela grande presença de carga emocional, a série da ABC é tão boa quanto sua concorrente, assumindo o papel de conscientizadora sobre assuntos não retratados na outra. Alguns exemplos disso: 


A luta contra o câncer. 


Maggie Bloom, interpretada pela atriz Alisson Miller, é incluída no enredo ao conhecer Gary Mendez (James Roday Rodriguez), em um grupo de apoio a pacientes em remissão do câncer de mama. Em um primeiro momento a personagem, que posteriormente torna-se par romântico de Gary, tem com ele um atrito, por não entender a razão para um homem estar naquele grupo, sentindo-se desrespeitada. É quando Gary esclarece: homens também possuem câncer de mama, e ele, assim como todas as mulheres presentes, está em remissão do seu. Ao retratar a doença, a série não torna seus personagens apenas pacientes de um grave diagnóstico, demonstrando seus medos e desistências por ela influenciados, mas também como continuam a vida apesar dela, abrindo-se a novas oportunidades de emprego, amizades e relacionamentos amorosos. Ponto importante, tanto para aqueles em tratamento ou em remissão, a série também pontua de forma excelente a importância de um grupo de apoio, seja ele qual for, para aqueles que se encontram abalados com a notícia. 


A depressão e a masculinidade tóxica. 


Rome Howard (Romany Malco) é um homem negro incapaz de falar sobre seus sentimentos e sua depressão. A série investe no tema abordando sua infância e relação com o pai, que desde cedo o incentivou a pressupor que a masculinidade envolve, entre muitas outras coisas, a suspensão de suas emoções, e que por seu histórico de trabalhador, vê na depressão uma desculpa de pessoas pouco motivadas ou, como costuma dizer, "uma doença que brancos ricos possuem". Buscar ajuda para o que sente, falar a respeito com sua esposa e, explicar para seu próprio pai como vem se sentindo, são os principais assuntos aliados ao personagem. Além disso, Rome continuamente aborda o racismo e a dificuldade do homem preto em expressar-se dentro de uma sociedade que mal o aceita.


A retratação da bebida alcoólica como um vício. 


Eddie Salive, personagem do ator David Giuntoli, é um músico afastado dos palcos após seu história de problemas com o álcool. Sóbrio, já casado e com um filho pequeno, Eddie está anos a frente de seu tratamento, e mesmo assim, constantemente apresenta a dificuldade de manter-se longe do vício, tão presente em comemorações e tão fácil de tornar-se um escape para situações dolorosas. Assim como com Maggie e Gary, o grupo de amigos é uma ótima fonte de apoio, sempre respeitando a presença de Eddie ao não incluir bebidas em suas reuniões e ao mesmo tempo, observando-o cuidadosamente para que não volte ao antigo hábito.


A mulher como chefe de família. 


Casada com Eddie, Katherine  Saville (Grace Park) é a principal responsável pelo sustento da família. Sua personagem, encarada como uma mulher forte e emocionalmente fechada no inicio da série, é a retratação fiel da mulher que trabalha, cuida do filho, da casa, e sofre com o distanciamento do marido que não a entende por completo. 


A maternidade aliada a perda do cônjuge. 


Delilah Dixon (Stephanie Szostak), é a viúva do já citado personagem que falece no primeiro episódio (mas que está sempre incluso na série nas memórias encenadas). Com dois filhos adolescentes, Delilah precisa lidar com a perda do marido e a confortar os filhos ao mesmo tempo em que lida com sua própria dor. Além disso, o enredo explora Delilah como, acima de tais características, uma mulher ainda em idade ativa, com desejos e sonhos a realizar. 


A rede de apoio  — que também precisa dele. 



Regina Howard, na vida real, Christina Moses, interpreta a esposa de Rome. É ela sua principal fonte de apoio ao longo da problemática que o envolve, mas é também dela o papel de demonstrar que ser uma rede apoio não significa não precisar de uma. 

Nas duas temporadas já gravadas são muitos os outros bons pontos levantados pela série, e citá-los aqui seria tornar a experiência de assisti-la menos enriquecedora. A Million Little Things é atual, e ao mesmo tempo que dramática por demonstrar a vida como ela realmente é, leve e bem-humorada em não resumi-la a apenas isso. 

© Limonada
Maira Gall