Só acontece comigo #72

Como disse anteriormente -- e provavelmente ainda vou falar muito --, adotei uma cachorrinha, ou como a chamo, "Paçoca Ferrari, a primeira de seu nome". Algo que poucas pessoas sabem sobre mim, afinal não é um assunto que surja com certa frequência, é que em 21 anos de vida nunca tive um animal doméstico que não fosse um peixe Betta. Mesmo assim, sempre fui apaixonada por cachorros e todas as trapalhadas que eles aprontam. Era só passar em frente de uma casa com algum na garagem/quintal que já perdia um bom tempo colocando minha mão entre os vãos dos portões e brincando um pouco com eles (e devo ser odiada por alguns vizinhos por isso).

Apesar das noites mal dormidas e das vezes em que posso ser ouvida dizendo "Paçoca" em tom de lamentação por ter que tirá-la de algum lugar errado, esse quase um mês sendo MÃE DE PET, tem sido maravilhoso, sempre tem algo a mais para descobrir sobre um cachorro, e isso inclui a rotina de  ir à veterinária para uma filhote que precisa de vacinas.

Em uma dessas idas aproveitei para conversar sobre algumas dúvidas que tinha, incluindo uma coceira constante que aparentemente não tinha relação com pulgas. Conversa vai, conversa vem, a veterinária perguntou se eu havia visto alguma mancha diferente na pele da senhorita Paçoca, e eu, mãe de primeira viagem, comentei sobre uma na barriguinha, que me preocupou um pouco.

-- Mas isso aqui é o umbigo dela, moça!


Antes um umbigo do que uma mordida de pulga, não é mesmo? Mas como os animais OUSAM ter umbigo? EU HEIN.

Be bostra as ibagens: Maio de 2018.

Vocês acreditam em astrologia? Porque eu não, mas todo mês do meu aniversário a vida parece dizer que o tal do inferno astral existe sim. Pode ser que de tanto eu não gostar do dia os acontecimentos ruins se desenrolem motivados pelo meu mau humor, ou que a maneira como os astros estão nos dias que antecedem a tal data realmente modifiquem algo (fica aí o questionamento). De qualquer forma, o mês de Maio não costuma ser muito bom por aqui, o que se refletiu um pouco nas poucas fotos que tirei. 

Não é exatamente uma fotografia, mas surgiu no Twitter uma brincadeira que consistia em se desenhar no modelo de uma batata, e como vocês podem ver, eu sou uma batata muito hipster:
 

Invasor de residências.



Um belo dia olhei para o meu quintal por volta das 9 horas da manhã e encontrei um gatinho apreciando a paisagem. Ficamos nos encarando por um tempo, tentei uma aproximação amigável, mas o bichano não era de fazer amizade com qualquer um e seguiu sua vida. 

A roda gigante. 



Surgiu essa roda gigante no estacionamento de um shopping da cidade -- ainda não andei, mas QUERO --, que funciona só quando anoitece e muda de cor constantemente. Gostaria de ter tirado uma foto melhor, que valorizasse mais o quanto ela é bonita pessoalmente, mas o tempinho nublado não colaborou. 

Mãe de pet.



Fazia tempo (anos, pra ser mais exata), que pedia um cachorro pra minha mãe e sempre tive o pedido negado, com certa razão até pela rotina da casa. Nos últimos meses ela foi se entregando mais, começamos a procurar por sites e feiras de adoção, até que no dia 20 de Maio fomos despretensiosamente em uma feira pequena e nos deparamos com uma filhote peludinha de quarenta e cinco dias que na mesma hora em que deitou no nosso colo, dormiu. Desde então dona Paçoca está por aqui, me fazendo rir com as coisinhas que de pouco a pouco aprende e levando umas broncas quando se esconde atrás da geladeira ou em baixo do fogão, mas definitivamente me fazendo alguém mais feliz -- e sendo uma ótima observadora enquanto faço xixi ou lavo a louça. 

Termino o mês com esse lado do peito mais quentinho e preenchido por esse montinho de pelos pretos que gosta de correr atrás do meu pé e com um ano a mais nas costas. Até Junho!

Ser o entre.


A passagem dos anos no calendário traz consigo a diminuição das nossas células; mesmo as perdendo, a sensação de acúmulo no meu corpo aumenta à cada 11 de Maio porque nessa mesma data -- em 1997, o dia das mães --, estive nos braços de alguém pela primeira vez. Vinte e um anos depois percorri outros, deixei e fui deixada com ambos esticados esperando por abraços que não vieram, perdi tantas e tantas células, roupas, amigos, cabelos, costumes e incontáveis segundos, mas a cada vez que surge a data cuja memória envolve meu nascimento, o peso e a perda aumentam.

Pesa por sentir que deveria ser mais quando ainda me sinto tão pouco, sendo cada peso contraditório por sempre estar acompanhado da sensação de ausência de tudo que sei não só ser, como ter sido. Vez ou outra me pego como um animalzinho que ainda não entende muito bem seu próprio corpo: me mordo sem reconhecer que por mais estranho que seja, aquilo também sou eu; corro em círculos em busca de mim sem perceber que estou ali, inteiramente presente naquele giro, mesmo que enjoada e cansada de procurar por um bando que me conforte quando posso muito bem seguir com meus próprios instintos.

No fundo sei que não estive rodando ao longo dos 21 anos que se passaram, lembro bem de carregar certezas e longas caminhadas em linha reta, mas ainda assim me enxergo como o entre. Estou entre as oportunidades de ser quem quero, entre o que fui e o que tento ser, entre os que foram e os que ainda serão, e entre as idades que separam a vida em seu início da sua continuação já determinada. Carrego o peso de ser não sendo e a perda de ter sido. Sou e estou entre. 
© Limonada
Maira Gall