Todos os posts da série "só acontece comigo" aconteceram antes do dia 14 de Março de 2020, data em que se iniciou o período de quarentena. Fique em casa.
Se você tem um cachorrinho em casa, sabe que para passear com ele é necessário se munir de saquinhos para recolher possíveis necessidades fisiológicas. É algo que nem aprendemos, uma atividade inerente ao ser humano: se vou sair com o bichinho, automaticamente uma sacola aparece em minhas mãos. Mágica.
Era um dia de semana, minha mãe havia acabado de chegar do trabalho e como Paçoca, a primeira de seu nome, nossa cachorrinha de estimação, não aceita passear apenas com uma de nós, fomos as três caminhar pela vizinhança. Munidas da sacolinha, é claro.
Paçoca é uma cachorrinha apaixonada por matos em geral. Grama, flores, árvores, parecem ser seus calmantes. E ali estávamos nós, paradas em uma calçada com uma plantação de flores, as quais Paçoca estava cheirando enquanto sentou. Apenas sentou.
O morador da casa, um homem por volta dos sessenta-e-pouco anos, chegou em sua bicicleta e o barulho assustou o animalzinho, que se encolheu e empacou, sem querer sair do lugar. O homem reclamou de algo com a voz "para dentro", e apesar de eu não ter entendido uma só palavra do que ele disse, minha mãe entendeu e respondeu.
-- Senhor, ela não fez cocô aí.
-- PALHAÇADA, VEM NA FRENTE DA CASA DOS OUTROS PRA CAGAR.
Paçoca tinha tanto medo que uma única bolinha de cocô não seria capaz de sair dela, de tão encolhida que estava, e o homem continuou reclamando enquanto tentávamos atravessar com ela no colo.
-- TEM QUE SAIR COM SACOLINHA, PIPIPIPOPOPO.
E eu, tomada por uns instinto materno, me virei lentamente e quando vi as palavras já tinham saído.
-- Senhor, ninguém cagou na sua casa, só você.
Todos os dias da minha vida ainda penso em colocar o cocô da Paçoca em uma carta e entregar na residência. Desculpa.























