Pessimismos
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Permissão para ser boba

São muitas as razões pelas quais não escrevo mais na internet como antigamente. Se esse blog existe desde 2013, é porque daquele ano até meados de 2016 eu tinha menos medo de expor aqui tudo o que, de alguma forma, não ficava completamente resolvido no mundo físico. O ano passado, principalmente, me deixou em um estado de paralisia do qual só fui realmente sair em Junho desse ano. Desde então, agora mais mentalmente saudável, me pergunto: o que ainda está me impedindo de fazer as mesmas coisas que sempre gostei? 


Ainda não consegui identificar bem o porquê, nem como isso começou, mas percebi que me sinto boba postando em um blog "na minha idade". Ainda sou muita nova e tenho completa noção disso, além de concordar que faixa etária não é critério para nenhum tipo de hobby, mas ainda assim meu eu interno insiste em jogar na minha cara que seria muito infantil da minha parte continuar alimentando um espaço na blogosfera em pleno ano de 2021, aos 24 anos. 


Acho que tenho medo. Mais dos outros do que de mim. Medo que as pessoas da vida real encontrem cada vez mais esse espaço e vejam coisas que muitas vezes eu escondo. Medo de ser julgada. Medo de ser considerada boba por falar o que falo e o que já falei por aqui. 


Quero me dar mais permissão para ser boba, mas esse é um termo de consentimento que ainda não consegui assinar. Talvez o segredo seja aceitar os termos sem antes lê-los, para assim parar de pensar tanto em algo que sempre fez parte de quem eu sou. 


Que post mais bobo. E que bobeira me importar tanto com os outros. Mais bobo ainda me achar boba por isso. 

Sinal de vida


Oi, como vão as coisas aí do outro lado?

Sumi por tantos meses que perdi o costume. Não sei mais como escrever para um blog pessoal. Cheguei a fechar o link por 24 horas (e me surpreendi com duas pessoas que lembraram meu e-mail e vieram perguntar como eu estava. Muito obrigada, mesmo, mesmo, mesmo!), mas passado o "surto", desisti e reabri. 


Em poucos dias completo 1 ano de isolamento social. Nesses 365 dias, às vezes em que saí se resumiram a voltas no meu quarteirão com minha cachorrinha, idas em padarias e mercadinhos próximos, consultas em médicos, e mais recentemente, uma ida à minha faculdade para tomar a primeira dose da vacina. Pois é, estou 50% vacinada. A segunda dose chega no fim desse mês, e foi uma surpresa saber que eu seria vacinada antes de começar meus estágios no hospital. Fiquei com a Coronavac, e pelo menos na primeira dose, não tive nenhuma reação, só o músculo dolorido durante o dia seguinte. 


É claro que reconheço o privilégio de ficar em casa durante a pandemia, o que só aconteceu por conta do EAD da faculdade e dos meus estágios só iniciarem em 2021, mas pelo andar da carruagem, já sei que vou começar a entrar em contato com muitos possíveis contaminados neste ano sem ver, de fato, uma melhora na situação da pandemia no país.


Acho que, afinal de contas, sumi por tanto tempo porque não sinto que tenho algo bom para falar, e os dias já tem sido tão doloridos pra todo mundo, que não vejo motivo pra vir aqui me lamentar.


Ainda tenho alguns "só acontece comigo" nos rascunhos, quem sabe começo a postar eles.


Se eu tiver ideias de posts que não façam a vida parecer um filme da franquia de Jogos Vorazes, também volto aqui.


Qualquer coisa, estou sempre no Twitter.  


Espero que vocês estejam todos bem (dentro do máximo possível). 

Memória Muscular.

Ilustração por Anna Macht.
Ilustração por Anna Macht.

Acordo ás seis da manhã e sigo a rotina já tão bem incorporada, praticamente uma memória muscular: calço os chinelos, acaricio o cachorro, arrumo a cama, limpo o rosto, desço as escadas, preparo o café. É quando ligo a TV, transmitindo o jornal local, que a normalidade enfim se quebra, e a realidade me atinge com violência por tê-la ignorado durante esses poucos minutos. Como pude tentar esquecê-la? Como ouso?


O cheiro do café sendo passado toma a cozinha, enquanto o jornalista faz a mesma reclamação do dia anterior — os índices de isolamento em São Paulo nunca são maiores que 49% —, e me pergunto se estou ou não tendo um déjà-vu. Nesse mesmo momento minha mãe aparece no cômodo, em seu uniforme azul que estampa a logo do supermercado, e meu coração parece esquecer seu ritmo quando um pensamento que já tive ontem, mas que dessa vez sei não ser mais um déjà-vu, me invade: em uma cidade cujas taxas de comprometimento com a quarentena são baixas, a mulher que considero ser toda a minha família precisa continuar saindo para nos sustentar. Sempre fico dividida entre o alívio de não estarmos passando dificuldades financeiras assim como muitos, e o desespero de vê-la indo trabalhar diariamente enquanto fico para trás.


Se em uma realidade paralela eu pudesse observar como seria não viver uma pandemia, me veria saindo de casa com minha mãe, deixando ração e água para o cachorro de olhar triste com nossa ida, entrando em transportes públicos sem me preocupar tanto com quantas pessoas estão ali unidas pelo atraso do serviço e em como nossas mãos tocam nas mesmas superfícies. Assistiria aulas, cumprimentaria colegas, almoçaria com amigos e em algum momento do dia respiraria fundo enquanto acompanhava a altura do prédio do Hospital São Paulo, com o corpo indo para trás, até ver seu topo, fechando um dos olhos no exato momento em que a luz solar o encontrasse, pensando em quantas pessoas fazem daquela sobreposição de tijolos um verdadeiro local de atendimento à saúde, de cura, de cuidado, de pesquisa e ciência, e em como seria quando a minha vez de trabalhar ali enfim chegasse.


Olho para o lado e minha mãe está se despedindo. Abro as janelas da sala enquanto a vejo fechar o portão e apesar de não estar olhando para cima, um raio de luz me atinge e involuntariamente tenho a mesma reação que teria caso a vida ainda seguisse em sua normalidade quando olhava para o topo do prédio: um olho aberto, outro fechado. Respiro fundo.


Todo o dia se passa com meu corpo em casa e minha mente acompanhando cada pessoa que precisa continuar trabalhando, se expondo, cedendo um pedaço seu. Reparo em coisas que antes não sabia: entre sete e oito horas da manhã pássaros entram no meu quintal e cantam, diariamente; das oito às nove a vizinha estende sua roupa; das nove às dez alguma outra casa liga a máquina de lavar e seu som reverbera pela quadra; das dez ao meio-dia carros passam, às vezes sirenes tocam e é sempre nesse espaço de tempo que sinto um pesar: não há nenhum hospital nas redondezas, e sei muito bem o que a sirene de uma ambulância tão próxima significa; ao meio-dia minha mãe manda uma mensagem, irá almoçar. Pergunto como ela está, como estão os funcionários, se os clientes respeitam as recomendações, se tem alguma dor, torcendo para que não tenha; às treze desisto de tentar preencher a inquietação e me permito senti-la; às quatorze a tristeza dá lugar a raiva, e sinto, sinto, sinto; às quinze digo que retomei o controle e me ocupo de afazeres; às dezesseis penso que mais aquele dia está perto de acabar; às dezessete, lembro que minha mãe já foi liberada do serviço e me certifico de ter feito todas as tarefas na casa, esperando-a; às dezoito ela chega com as orientações cravadas em sua própria pele, de tanto que as repeti: tira os sapatos, mercadorias da nossa janta para fora, eu as limpo, as guardo, ela toma banho, as roupas são lavadas pela máquina; às dezenove minha fé se renova, estamos bem, estamos vivas, temos uma casa, roupas e ainda não encontramos o inimigo invisível que ataca toda a humanidade; às vinte me sinto egoísta, muitos não estão bem, nem vivos, e se possuem casa e roupas, perderam o lar que tinham no outro. Como ouso tentar esquecê-los? Como posso?


Me deito para dormir desejando que o amanhã demore um pouco mais a chegar, mas o tempo tem seu próprio tempo, o relógio me acorda às seis e sigo a mesma memória muscular. Como posso tentar esquecer? Como ouso?

A falta que faz.


  • ☐ Ter auto confiança e disposição suficientes pra passar batom vermelho antes de sair;
  • ☐  Gostar do meu cabelo a ponto de não deixá-lo preso o dia todo;
  • ☐ A minha imagem com lentes de contato (mesmo que os óculos me deixem muito mais confortável);
  • ☐  Me sentir necessária na vida das pessoas por quem tenho carinho;
  • ☐  Ler mais;
  • ☐  Passar o dia no meu lugar favorito;
  • ☐  Ficar confortável ao aparecer em fotos;
  • ☐  Estudar por/com prazer;
  • ☐  Ficar em casa mais tempo;
  • ☐  Caminhar sozinha;
  • ☐  Escrever, escrever e escrever. 


2018: o anti-herói.




Na ficção o anti-herói é aquele que apesar de possuir certo protagonismo no enredo não vai salvar ninguém além dele mesmo e não será o responsável por beijos românticos na chuva, ou seja, o anti-herói é o ano de 2018 personificado.

Se for pra ser honesta, não posso dizer que foi um ano impossível, mas mexeu em tantas feridas, antigas e recentes, que quando não me deixou paralisada pela dor, me tornou incapaz de entendê-la e senti-la ao mesmo tempo, o que só a intensificou, e a falta de tal entendimento torna até o ato de escrever sobre tudo isso difícil demais.

Foi ano de perder muito e não conseguir ver o copo meio cheio. Na verdade, em uma metáfora, foi como se a pouca água do copo tivesse ficado exposta à temperatura de ebulição, levando o vidro a ficar todo embaçado, impossível de enxergar o outro lado: todo o meu segundo semestre é como um borrão.

Vi tudo o que construí de 2016 para cá, pra mim e pros outros, tornar-se nada. Não sei mais quem sou e nem quais são as subjetividades que me tornam um todo, não consigo entender se tenho um lugar para ocupar e um propósito a seguir. Sei quem fui e o que fiz e não fiz, mas em momento algum entendo o presente, e isso me assusta, porque o atual momento parece ser tudo o que tenho justo agora que não o reconheço.

Li e escrevi mais do que em qualquer outro ano, e ainda estou tentando reprogramar minha mente para outro modo de ver esse consumo de palavras um pouco desenfreado. Sei que só aconteceu porque eu precisava me inserir em contextos que não fossem minha realidade, mas ao invés de fazer disso algo ruim, quero olhar pra todos os livros lidos e tudo o que por mim foi escrito sabendo que nesse ano as palavras – mesmo quando gritadas e reverberadas apenas na minha mente -- me salvaram, assim como já fizeram tantas outras vezes.

Encontrei e desencontrei o amor em suas diferentes formas. O encontrei quando adotei uma cachorrinha que na época, com quarenta e cinco dias, era uma bolinha dorminhoca e chorona, e hoje, oito meses depois, é a alegria da casa; o encontrei quando pelo meu bem decidi tirar completamente da minha vida uma amizade cuja via não era de mão dupla; quando aceitei e pedi desculpas; quando reencontrei amigos depois de muito tempo e mesmo com tantas mudanças ainda me peguei desejando revê-los; quando pedi pra ser vista em um momento difícil e realmente fui, indo parar até em outro Estado por causa desse pedido, e o desencontrei, até doer e virar um choro desesperado de quem pelo amor pede pra que não doa mais, não em mim. Mas doeu, e ainda dói se me concentro em só pensar nisso. Não quero mais pensar, quero ser amada sem ter que amar de novo. Egoísta, eu sei, assim como foi todo acontecimento do meu 2018, que me ensinou a ser da mesma forma que ele: egoísta, não no sentido cru da palavra, mas naquele que se refere principalmente a fazer de si a prioridade, porque agora, enquanto escrevo, sei que estou sozinha e sou responsável por todos esses encontros e desencontros, cujas consequências apenas eu vou carregar, e tentar abraçar a todos que me cercam, por esse motivo, não vai funcionar.



Até ano que vem, um pouco menos confusa e dolorida, espero.

Ser o entre.


A passagem dos anos no calendário traz consigo a diminuição das nossas células; mesmo as perdendo, a sensação de acúmulo no meu corpo aumenta à cada 11 de Maio porque nessa mesma data -- em 1997, o dia das mães --, estive nos braços de alguém pela primeira vez. Vinte e um anos depois percorri outros, deixei e fui deixada com ambos esticados esperando por abraços que não vieram, perdi tantas e tantas células, roupas, amigos, cabelos, costumes e incontáveis segundos, mas a cada vez que surge a data cuja memória envolve meu nascimento, o peso e a perda aumentam.

Pesa por sentir que deveria ser mais quando ainda me sinto tão pouco, sendo cada peso contraditório por sempre estar acompanhado da sensação de ausência de tudo que sei não só ser, como ter sido. Vez ou outra me pego como um animalzinho que ainda não entende muito bem seu próprio corpo: me mordo sem reconhecer que por mais estranho que seja, aquilo também sou eu; corro em círculos em busca de mim sem perceber que estou ali, inteiramente presente naquele giro, mesmo que enjoada e cansada de procurar por um bando que me conforte quando posso muito bem seguir com meus próprios instintos.

No fundo sei que não estive rodando ao longo dos 21 anos que se passaram, lembro bem de carregar certezas e longas caminhadas em linha reta, mas ainda assim me enxergo como o entre. Estou entre as oportunidades de ser quem quero, entre o que fui e o que tento ser, entre os que foram e os que ainda serão, e entre as idades que separam a vida em seu início da sua continuação já determinada. Carrego o peso de ser não sendo e a perda de ter sido. Sou e estou entre. 

Roger Waters me entenderia.



Nessa semana saíram várias matérias sobre o ranking de ensino nas escolas paulistanas de acordo com a nota do ENEM, que acontecerá novamente dentro de um mês. Entre todas as comemorações das escolas particulares que servem exclusivamente a uma população cujos pais dos alunos são médicos, advogados e engenheiros, me perguntei quando foi que a educação passou de algo essencial para todos por lei para uma disputa pra saber quem passa no curso mais concorrido daquela universidade talvez um pouco subestimada. Com esse pensamento surgiu a pergunta: a vitória desse ranking pertence a quem? É mesmo justo obter o primeiro lugar pagando mais de R$ 2.000,00 mensais para se alcançar o topo de algo que não deveria ter se tornado mais uma das competições que nos fazem máquinas incapazes de sermos quem realmente somos em nome do sucesso profissional, esse que talvez lá na frente não seja o que você pensou e te faça mais mal que bem?

A minha vida toda estudei em escola estadual. E ao contrário de alguns que estudam boa parte na particular e no Ensino Médio mudam para a pública a fim de conseguir burlar alguns sistemas de vestibulares, nunca tive outra opção; ou estudava na pública, ou não estudava. Vivenciei nesses mais de 10 anos dentro desse sistema o que todos já viram nos jornais: não tem papel higiênico, não tem merenda, não tem aula, não tem profissional capacitado para nos ajudar com questões estudantis, não tem vigilância dentro da própria sala de aula e se tem professor, ele não vai te dar aula. Nunca vi ninguém comentar sobre isso com sinceridade, mas não vou deixar de falar: a grande maioria dos professores são responsáveis pelo desencorajamento dentro dessas escolas. No meu Ensino Médio inteiro, meu professor de Física apenas entrava na sala, sentava e ali ficava por 50 minutos. No fim do bimestre uma prova da matéria surgia em nossas frentes como se alguém fosse capaz de entender o que os enunciados dos exercícios queriam. Durante os três anos do Ensino Médio, eu acreditava que Física se resumia à "delta-t-sobre-delta-s". Ao contrário do que se têm  falado internet a fora, em Sociologia e Filosofia nós nunca realmente aprendemos a questionar o sistema em que vivíamos, e nunca fomos influenciados a apoiar nenhum lado politico, porque na verdade, a grande maioria dali, sem possuir interesse no assunto, ganhou o certificado de Ensino Médio completo sem saber diferenciar quem a Direita beneficia e quem a Esquerda apoia. Em Biologia, a única coisa que vimos sobre Botânica estava ligada a fotossíntese, eu JAMAIS saberia da existência de briófitas e pteridófitas se não tivesse a oportunidade de entrar em um cursinho pré-vestibular. E quando digo oportunidade, é porque realmente foi uma.

Ao contrário do que talvez pareça, não pertenço a Classe Média. Só frequento o pré-vestibular porque aos 16, como a grande maioria que vem do ensino público, comecei a trabalhar e assim permaneci por três anos seguidos, juntando dinheiro suficiente para poder pagar meus estudos - estudos que hipoteticamente eu não precisaria fazer após três anos no Ensino Médio, mas se até os alunos das escolas privadas partem para os cursos preparatórios, como eu, que sabia menos que o básico, seria capaz de entrar em uma universidade competindo com eles? - e reconheço o privilégio que tenho, porque 95% das pessoas que estudaram comigo ou nem sequer cogitam a possibilidade de estudar algo ou entraram em faculdades desconhecidas até pelo MEC, e por mais que seja errado tirar o mérito de pessoas que partem para o Superior privado é necessário confessar: em uma entrevista com um candidato que possui diploma da estadual contra um da privada-não-tão-falada é fácil saber para quem as preferências irão apontar. 

Recentemente a USP se encheu de orgulho para anunciar que aumentou a porcentagem de alunos oriundos de escolas públicas matriculados em seus cursos. Em que mundo paralelo precisamos viver para acreditar que tais alunos não precisaram passar por um sistema de ensino particular depois do Ensino Médio, assim como eu, assim como muitas pessoas que conheço? Como um aluno da escola pública vai ser capaz de responder 90 questões, passar para a 2ª fase dissertativa e entrar em uma universidade onde os alunos com renda superior a sete salários mínimos ultrapassa os 50%?

Dentro do cursinho fica cada dia mais doloroso perceber o quanto fui prejudicada pelo ensino gratuito que nada ensina e nada motiva. É cruel ver pessoas mais novas que eu reclamando por não conseguir isenção da taxa dos vestibulares quando o pai é um advogado, a mãe engenheira ou a família pertence a uma geração inteira de médicos. É revoltante escutar pessoas de 17/18 anos dizendo que seus pais são pessoas ruins porque não quiseram pagar a bebida alcoólica dele e dos amiguinhos no fim de semana, quando a única coisa que eu enxergo são pais que com a possibilidade de pagar pela educação, pelas roupas, pelas contas e pelo entretenimento do filho acreditam que o mesmo reconhece o esforço feito. E não, nunca vai reconhecer, porque infelizmente só aprendemos a valorizar o sol depois da tempestade, não é?

É um texto sem conclusão, porque o problema continua (e infelizmente continuará) em aberto por muito tempo. O sistema educacional atual é mais um reflexo da sociedade injusta em que vivemos, onde vence quem tem mais dinheiro. Eu realmente espero estar viva para ver o dia em que o público será preferível ao privado, mas como todos nós acompanhamos, é uma utopia cada vez mais distante.

*Em caso de possíveis dúvidas, Roger Waters era integrante da banda Pink Floyd, foi ele o compositor de Another Brick In The Wall. 

P.S: sei que no geral costumo abordar o cotidiano de forma mais cômica aqui no blog, mas isso era algo há muito entalado, precisava escrever esse texto.

Eu existo. | BEDA #26

Em uma parte do meu self-image de 2014 escrevi: "Eu ando pelas ruas querendo que não me notem e paro nos lugares querendo que me notem [..]", e de todas as coisas sinceras que já desabafei aqui, essa é uma das que parece nunca mudar. No ensino fundamental sofri bullying, então é normal que eu não queira ser notada, ou que me sinta um pouco menos que todas as pessoas, mas assim como em 2014, junto dessa vontade enorme de passar despercebida carrego o desejo do mesmo tamanho de ser notada. 

Durante essa semana, sentada na escada com uma amiga durante o intervalo, nossa professora de Genética passou e parou pra me abraçar e beijar, e aproveitou pra perguntar se por acaso eu ficava incomodada com as piadas que ela faz em sala de aula. Como professora de Genética, ela nos ensina a fazer cruzamentos (Aa, Bb, QUEM LEMBRA?) e ai sempre tem a brincadeira do "Estão cruzando muito?", como eu ouço essa piada desde o ano passado, acabo só dando um risinho simpático, e ela, percebendo isso, quis me perguntar se estava tudo bem. Eu sento em uma área próxima à ela? Não, não sento. Ela consegue me ver em uma sala com mais de 60 pessoas? Consegue, e se preocupa com o que eu acho da aula dela. Eu existo, eu sou notada.

Também nessa semana, em uma biblioteca, um senhor sentado em uma mesa próxima a minha perguntou se eu tinha uma caneta azul para emprestar, respondi que sim, a entreguei e continuei meus estudos. Depois de algumas horas, notando que eu estava fechando minha mochila pra ir embora, ele me perguntou:

 - Vou ficar sem a caneta, né?

Eu, vendo que ele realmente precisava dela e completamente tomada pelo espírito Amanda Palmer de conduzir a vida deixei que ele ficasse com a caneta, recebi um olhar surpreso em resposta, um muito obrigada, e um "Qual a sua graça?" que precisou de muita maturidade da minha parte pra realmente dizer meu nome ao invés de fazer uma piadinha com a expressão. Eu existo, eu sou notada.

Na semana passada senti falta da minha carteirinha estudantil na sexta à noite, esperei até essa semana pra voltar ao cursinho e quando passei pela catraca pedi para o segurança abrir o portão e expliquei o ocorrido, depois lembrei de ver com a coordenadoria se alguém tinha achado e a encontrei. No dia seguinte, quando cheguei, o mesmo segurança me perguntou se eu havia a encontrado, respondi que sim e ele contou que lembrou de dizer sobre a coordenadoria depois que eu já tinha saído. Eu existo, eu sou notada.

Sei que é ridículo pensar que as pessoas não me veem, mas pra quem sempre esteve acostumada a observar e decorar os rostos das pessoas sem nem saber seus nomes é estranho saber que eu estou aqui, sendo vista.

 

15 em 15. | BEDA #7



Durante as últimas semanas o mundo retornou para 2008, os emos estão mostrando seus lápis de olhos pretos outra vez (alô, My Chemical Romance, eu estou falando de você) e as correntes tomaram conta do Facebook. Eu, que amo ler os fatos que as pessoas fazem sobre si ou os conselhos que dão para quem foram no passado resolvi entrar na dança de um jeito diferente, pedi um número pra minha amiga (@frrustacoes) e transformei em mais um post pro BEDA. Tudo na vida é uma oportunidade, não é mesmo? Pois muito que bem, vamos para os 15 conselhos que eu daria para a Tatiane de 15 anos.

1 - Para de ir tanto pela cabeça dos outros, ano que vem você vai descobrir que é muito mais forte do que imagina e vai perceber que seu ponto de vista importa bem mais;

2 - Não faz essas cagadinhas ai não, daqui uns anos você vai lembrar de si experimentando essas coisas e vai se arrepender bastante, não muda nada na sua vida, e não te faz mais legal;

3 - Se pra se encaixar nesse grupo você precisa ser tão diferente de quem realmente é, isso significa que eles não são seus amigos;

4 - Apesar de você ter feito algumas coisas das quais se arrependeu depois, ainda vai encontrar seu caminho e eu me orgulho muito disso!;

5 - Sabe aquela paixãozinha? Maior bosta, cai fora;

6 - Para de ser tão estúpida com a sua mãe, ela só quer ajudar;

7 - Não vai pela praça da avenida na volta pra casa, um tiozinho vai te parar e se não fosse um cara passando ir te ajudar você ia ser assaltada. De nada;

8 - Ao invés de sentar do lado esquerdo da sala, continua no direito. Lembra daquelas pessoas com quem você gostava de conversar, mas vai se afastar? Elas sim merecem teu tempo;

9 - Não rasga os pôsters dos Jonas Brothers, daqui três anos você vai ganhar CD'S deles e vai se arrepender disso; 

10 - Começa a trabalhar mais na sua dificuldade em aceitar seu corpo, com o passar do tempo vai ficar cada vez mais difícil gostar dele e eu sinto em te informar, mas daqui 4 anos seu peso vai estar quase a mesma coisa. Uma notícia que vai te alegrar: apesar da dificuldade, em 2015 você vai conseguir usar shorts na rua pela primeira vez. E não, ninguém vai te zoar, na verdade ninguém nem vai olhar pra isso;

11 - Para de sentir vergonha do óculos, essa lente irrita seu olho, usa só pra sair mesmo. Se eu te falar que ano que vem você vai mudar a armação e descobrir que na verdade o problema estava no modelo dela você vai acreditar?;

12 - Até seu aniversário de 16 anos você vai passar por duas escolas. A primeira vai ser péssima, você vai chorar todo dia quando chegar em casa, mas continua chorando porque isso vai deixar seus pais assustados e eles vão te transferir pra outra. Nessa nova escola você vai conhecer uns caras bem legais (e sim, você só vai andar com meninos, mas vai ser ótimo, te garanto). (Vocês vão matar aula pra andar no carrinho do mercado, jogar vídeo-game e beber Toddynho,) (E vão rir muito nesse dia, até você fazer xixi nas calças, vai no banheiro antes, sério mesmo.);

13 - Religião não é pra você. Para de insistir só pra tentar deixar sua mãe feliz (em 2015 você vai fazer isso de novo, mas dessa vez vai estar certa, a sua mãe precisava muito te ter do lado dela.);

14 - Você vai começar a trabalhar em Julho de 2013 e só vai parar em Julho de 2015. E ainda vai ser responsável e abrir uma poupança para emergências que vai ser pra lá de útil, é com ela que você vai pagar seu cursinho (sim, você vai fazer cursinho) (sim, você vai mesmo perceber que é psiquiatria, para de querer enfiar outros cursos na cabeça) e eu me orgulho muito de tudo o que você ainda vai fazer;

15 - Não deixe que as coisas ruins que vão acontecer te tornem tão pessimista. Vai demorar muito pra isso sair de você e vai ser horrível conviver com esse peso, tenta pegar mais leve, se cobrar menos e se gostar mais, vai facilitar muito as coisas nos próximos dois anos.

Se você quiser um número, é só deixar nos comentários que eu passo no seu blog e te deixo um. <3


Hoje eu tô só o Joey fazendo trinta anos.


Uma vez a Taylor Swift nos disse que "When you're fifteen and somebody tells you they love you, you're gonna believe them." e como se não bastasse, ainda completou dizendo que "When you're fifteen feeling like there's nothing to figure out, well count to ten, take in this is life before you know who you're gonna be." e eu apenas concordo, sabe? Quando essa Tatiane de dezenove anos pensa na de quinze e lembra do primeiro casinho mais sério que teve na vida e de como pensou que iria morrer quando não deu certo - mesmo que já estivesse óbvio há muito tempo o quanto eu só estava sendo usada naquilo tudo - acreditei fielmente que era algo recíproco, e foi exatamente nessa época que eu me tornei a adolescente horrível que não ouvia nada do que me diziam porque queridos, vejam bem, EU SEI TUDO, EU TENHO QUINZE ANOS!!! Mais tarde, menina Taylor completou seus vinte e dois e disse que se sentia "Happy, free, confused and lonely at the same time." (me pergunto se ela foi sentir isso só aos vinte e dois ou se ela só esqueceu de falar antes mesmo, porque eu me sinto assim possivelmente desde o útero). Enquanto isso, os caras do Kings of Leon também acharam razoável falar sobre uma garota de dezessete anos que se queixa sobre tudo (estaríamos todos eternamente parados nos nossos dezessete anos? Fica ai a reflexão), mas ninguém, eu disse: NINGUÉM, pensou que existem pessoas fazendo dezenove anos todos os dias e que elas podem querer uma música pra se identificar com o momento.

É eu fiz dezenove anos.
Daqui um ano é vinte.
Dos vinte para os trinta é um piscar de olhos.
Alguém me abraça?

Não venho de uma família com o costume de comemorar aniversários, e eu realmente nunca senti falta disso, me conheço e sei que como pessoa introvertida que sou odiaria ter que receber inúmeros abraços, agradecer por presentes antes mesmo de abri-los e imaginem só aonde eu colocaria minha cara durante os parabéns? Sem falar do ritual de assoprar as velas, consigo visualizar perfeitamente o momento em que eu me desequilibraria e daria de cara com o chantilly daquele bolo de padaria comprado as pressas pois isso é o máximo que quem faz aniversário em uma quarta-feira consegue. Ano passado, por exemplo, quando cheguei mais perto de ter uma comemoração, acabei ganhando uma cotovelada no olho, e por ai vai. Não comemorar meus aniversários me salvou de muitas coisas, como vocês podem notar.

Lembro de uma vez em uma das séries do Ensino Fundamental, meu subconsciente tentava me lembrar de que havia algo muito importante acontecendo naquele momento enquanto eu me perguntava o que precisava fazer naquele dia. Era meu aniversário. Eu só lembrei quando tive que escrever a data no caderno. Já passavam das dez da manhã.

A minha maior dificuldade é me ver com dezenove e sem nenhuma noção do que vai acontecer comigo daqui pra frente, mas como pessoa que já assistiu Friends demais durante a vida e viu alguns personagens não casando, outros começando a planejar seus rumos com trinta anos, e outros que mesmo com trinta ainda não sabiam o que fazer, tento mentalizar que tudo vai dar certo e que independente da idade, sempre é muito cedo pra decidir quem se quer ser.

Você sabe o que é socializar? Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar.



Sempre tive o dobro da dificuldade considerada normal para me aproximar de pessoas novas. Cresci sendo filha única com primos mais velhos, que eu raramente via, e quando isso acontecia, costumava ser quase um objeto nas mãos deles - eu podia brincar, mas tinha que ser tudo conforme mandassem. Para evitar que eu crescesse sem conexão com outras crianças, minha mãe me matriculou em uma escolinha quando eu tinha um ano e meio, talvez eu fosse mais tímida ainda se tivesse iniciado minha vida escolar aos quatro anos como a maioria das crianças, mas ainda assim o problema não foi resolvido por completo.

Antes dos quatro anos mudei de cidade várias vezes, e não lembro se tinha problemas pra começar minhas amizades do zero com as outras crianças por motivos óbvios. Dos quatro aos seis anos permaneci na mesma escola, aos sete fui para uma nova escola onde fiquei só o primeiro semestre do ano, como dei sorte de chegar em um dia de trabalho em grupo não precisei me esforçar tanto para encontrar amigos novos; no segundo semestre daquele mesmo ano, fui para uma nova escola onde permaneci até os dez, ainda consigo lembrar perfeitamente do primeiro dia, sentei em uma das primeiras mesas e fiquei debruçada, em menos de cinco minutos seis crianças estavam a minha volta elogiando a capa do meu caderno e perguntando meu nome, e ali eu fiquei por quatro anos, sem precisar me preocupar em fazer novos amigos. Até que chegou o fim do Ensino Fundamental I e com ele eu teria que mudar de escola novamente, nada assustador também, já que vários amigos da antiga escola caíram na mesma sala que eu; depois de quatro anos, como a escola nunca mudava a composição das salas, eu já era amiga de mais da metade da classe. O Ensino Médio não foi diferente, conhecidos estavam na mesma escola que eu, alguns de nós caímos na mesma sala, mas foi logo ai que as coisas começaram a dar errado.



Quando a Amanda postou esse texto, foi inevitável não me identificar completamente. A escola nova era muito diferente da anterior, as pessoas eram muito diferentes, e é claro que quando você entra em uma escola onde popularidade é disputada como vagas em faculdades federais isso te faz querer ser um deles, e o maior erro da minha vida foi justamente querer. Eu tinha gostos em comum com essas pessoas - só os musicais, pra ser sincera - e isso me aproximou deles facilmente, mas me distanciou de tantas pessoas que realmente mereciam minha amizade que quando eu me toquei disso já não dava mais tempo de correr atrás do prejuízo; eu não era como eles, não gostava das conversas, não gostava das atitudes, sempre inventava alguma desculpa pra não sair com eles por não gostar dos lugares frequentados, ficava incomodada cada vez que tentava me isolar e alguém vinha atrás, mudei de escola outra vez e encontrei pessoas que me faziam sentir parte daquilo, mas só eu sei como foi difícil me enturmar de novo, só eu lembro dos textos que postava aqui no blog nessa época, e só eu sei o motivo de os ter excluído: ler tudo aquilo me fazia voltar para a época em que eu não me considerava uma pessoa que merecia ser reconhecida. 

O Ensino Médio acabou e eu me vi desesperada de novo. Os poucos amigos que eu tinha estavam tomando rumos completamente diferentes dos meus, outra vez, e se eu falar que não pensei em fazer qualquer coisa que me deixasse perto de algum conhecido vou estar mentindo.

Até que eu descobri um colega que também ia fazer curso pré-vestibular e aproveitei a chance para me matricular no mesmo lugar que ele. Caímos na mesma turma e passávamos nossas aulas rindo e nossos intervalos dançando forró (ele me obrigava e eu fingia odiar, mas no fundo era muito divertido) até que no segundo semestre coisas aconteceram nas nossas vidas, eu precisei mudar de período e ele precisou trancar a matrícula, foi quando percebi minhas duas maiores inseguranças, das quais fugi por anos, acontecendo do dia pra noite: eu não sei me aproximar das pessoas e não fico bem se estou sozinha quando todo mundo a minha volta não está.

Quando cheguei no novo período, o grande problema que encontrei foi a diferença de idade, apesar de eu ser um ano mais velha que a maioria, é incrível como um ano já muda o que achamos certo ou não. A maioria ali estava terminando o Ensino Médio, e vinham direto da escola cheios de energia e disposição - rolava gente colando caderno nas cadeiras com fita crepe e rindo quando o colega em questão chegava e tentava tirar o material daquela situação. As meninas infelizmente tinham aquela mentalidade em que ao invés de conversarem com as pessoas, olhavam de longe e faziam cara feia se você não estivesse dentro do que consideravam aceitável; ainda na minha primeira semana de aula, conheci uma menina que tinha as mesmas dificuldades que eu, até começamos a conversar, o que durou só um dia já que ela nunca mais apareceu; foi quando eu faltei por quatro dias seguidos e falei pra minha mãe que não ia conseguir continuar.

Minha mãe como sempre me deu um choque de realidade e me convenceu de que a vida não era desse jeito, a gente precisa enfrentar as coisas, ficar fugindo nunca vai te levar pro caminho certo. Então eu novamente uni forças e voltei para as aulas, pra minha surpresa, uma colega do outro período pediu transferência para a mesma turma que eu, e apesar de antes nosso nível máximo de socialização ser apenas um "Oi, tudo bem?", nos aproximamos tanto que hoje ela se tornou uma das pessoas em quem mais confio. E como eu queria terminar esse texto aqui, dizendo que às vezes o inesperado acaba sendo o melhor, mas não acabou, amigos. 

Faltam poucos dias para eu voltar para o cursinho, mas dessa vez não vai ter absolutamente ninguém conhecido ali, porque novamente as pessoas trilharam caminhos diferentes dos meus. Ao mesmo tempo que fico pensando o quão maravilhoso isso pode ser, quantas oportunidades de conhecer pessoas novas e possíveis amigos de verdade eu tenho, ainda sinto um enjoo enorme só de pensar que pelo menos na primeira semana eu posso ficar completamente sozinha. Eu gosto de estar sozinha, mas odeio ser sozinha, já sou insegura demais e notar que ninguém tenta se aproximar muitas vezes me faz querer desistir de frequentar os lugares, e eu sei que posso mudar isso, sei que posso iniciar uma conversa com alguém e mostrar para as pessoas pouco a pouco que estou interessada no que elas tem a me dizer, mas eu não recebi esse manual e não sei se algum dia vou aprender a me virar sem ele. 

Acho que nunca fiz um post tão pessoal como esse por aqui, o que significa que eu realmente estou muito desesperada. Me desejem sorte? Me falem como vocês fazem pra conversar com desconhecidos? Eu agradeceria muito!

Yes, we can.



Eu sou complexada.
Não tem mais o que falar, obrigada por terem lido. 

A insegurança me acompanha desde pequena, lembro-me de tê-la sentido pela primeira vez quando notei que todas as crianças usavam sapatos coloridos enquanto eu usava minha bota ortopédica, em uma vibe Eduardo, achei estranho, mas decidi não comentar e segui com minha vida, mesmo que isso envolvesse usar vestidos rodados com um par de botas pretas nos pés. Algum tempo depois comecei a usar óculos, era chato ver todos os meus colegas correndo livremente no parque enquanto eu tinha que ter um cuidado extra pra não quebrar a única coisa que me fazia enxergar, e para uma criança com cinco anos, um óculos com grau quatro era a única coisa que poderia me fazer esquecer a bota ortopédica, porque veja bem, não basta ter um pé meio torto, tem que ter um probleminha de visão também.

Perdi dentes de leite, esqueci meu amigo invisível, perdi quatro peixes Betta, mudei de casa quatro vezes (to achando incrível como o número 4 me persegue, nunca tinha reparado) fiz incontáveis coisas, até finalmente, aos 12 anos, decidir andar de mãos dadas com a insegurança, apertem os cintos, a aventura pelo mundo dos complexos começou.

De todas as inseguranças, a mais forte sempre foi relacionada ao meu peso. As pessoas falam, muitas vezes falam o que não deveriam, e eu, esta pessoa insegura que sou, sempre dou ouvidos ao que dizem, muitas vezes um motivo de orgulho, mas em sua maioria, uma desgraça. Quanto mais você cisma com algo, mais as pessoas parecem gostar de falar disso, e no meu caso, é claro que todo mundo sempre falou do meu peso, porque vejam bem, se eu não comer mais, vou voar; se eu não comer mais, vou sumir; "olha esses braços, eu consigo fechar a minha mão em volta dele!" e então começava uma premiação com tapete vermelho para ver quem conseguia o troféu de braço mais grosso que o da Tatiane. Por tal motivo, eu nunca saio de shorts na rua. A última vez que me lembro de tê-lo feito, foi aos oito anos, fazendo as contas, foram exatamente 10 anos passando calor no verão. 

Ano passado comprei uma saia. Comum, um pouco acima do joelho e rodada, estampada com gatinhos pois não sou obrigada, e assim iniciou-se a saga de desconstrução de complexos psicológicos nada úteis. Depois de ir acostumando com a ideia comprei um vestido e também comecei a usá-lo, até que um dia, em um banheiro de shopping, dei de cara com meu reflexo no espelho de saia e o monstrinho horrível gritou na minha mente: RÍDICUUUUUUULA OLHA ESSAS PERNAS FINAS, ESSAS COISAS BRANCAS QUASE TRANSLÚCIDAS, SE ESCONDE NO SEU QUARTO E FICA LÁ CERCADA POR ANIMAIS ENQUANTO DIGITA TEXTOS RECLAMANDO DA VIDA NA INTERNET, SAI DAQUI, VOCÊ NÃO MERECE VIVER EM SOCIEDADE. Eu, educada como sou, dei ouvidos.


Mas o mês de Setembro chegou, porque ele sempre chega, e com ele vem a primavera, e o que é imortal não morre no final, portanto, o calor começou. Calor pra ser gentil, porque sinceramente falando, em São Paulo estamos presenciando uma demonstração realista do inferno. 

Como o evento acima não requer trajes sociais, viver com calça jeans e tênis estava sendo complicado, pra não dizer impossível, e ver estudantes confortáveis com suas roupas de verão enquanto eu morria lentamente não estava ajudando muito, até que em um dia de inspiração, depois de acordar ouvindo música alta com vontade de fazer faxina na casa, tomei um novo rumo em minha vida.
Peço perdão ao código das blogueiras mas não vi necessidade em editar a imagem.

A imagem acima é real.
Eu sai de shorts.
Passei mais de 4 horas convivendo em sociedade de shorts. 
Acho que até ouvi a pele da minha perna dizer um obrigada durante o dia. 

Não consigo mais falar sobre isso, preciso de um tempo pra digerir e conseguir explicar a sensação da forma certa, pra toda vez ler o texto e lembrar que eu posso sim sair com as pernas à mostra na rua.

Meio termo.

"Ah! Mas que sujeito chato sou eu, que não acha nada engraçado. Macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco."

Há todo um orgulho em ser pessimista, você crê que isso te protege, e até que está um pouco melhor que os outros por não ser tão iludida como eles, acha que ver a vida de um jeito alegre é ilusão. Mal sabia que na verdade, já estava iludida.

Acreditar que sempre está tudo ruim difere completamente de querer melhorar e crescer cada vez mais. Sempre vai melhorar, a vida é isso, uma melhora atrás da outra com vários momentos ruins no caminho, mas que vão construir sua história e te mostrar o que você realmente quer ser, o que não quer ser, o que quer e não quer ter, quem quer conhecer melhor, quem quer manter por perto e quem precisa manter longe. Quanto tempo passamos mandando tudo para o inferno e exclamando com convicção que as coisas só dão errado? Como se ter problemas e cometer erros só acontecesse conosco. Não precisa abaixar a cabeça com vergonha, nem dar esse risinho disfarçado, olha pra mim e escuta isso: todo mundo é assim! Acredite, a maioria das pessoas está passando por coisas semelhantes, que as machucam na mesma intensidade, mas acontecem de formas diferentes com cada um, porque ninguém é igual, e você sempre soube disso, mas é tão fácil jogar a culpa nas próprias costas e dizer que tudo sempre dará errado com você, não é? Eu te entendo, mesmo. 

Conselhos nem sempre são bons, mas eu vou deixar um aqui e cabe somente a você decidir se ele te ajuda ou não. Preparada? Larga esse pessimismo, para de fazer disso um motivo para se orgulhar de si, você não precisa perder tudo por causa desse teu jeito pra só então perceber que as coisas ruins acontecem porque você mesma faz isso. Aconteceram coisas ruins? Eu sei que sim, mas você lembra de todas as coisas boas que vieram junto, não adianta tentar se enganar, não preciso cita-las, só de ler isso você lembrou de inúmeras. Não estou falando pra você acreditar que a vida é um conto de fadas, que todas as pessoas do mundo são boas e merecem sua confiança, muito menos que tudo sempre vai dar certo, só estou pedindo pra você considerar a ideia de que em algumas coisas nós ficamos melhor em cima do muro. Se der errado, você pula pra trás e encontra um caminho melhor, afinal, você sempre fez isso sem nem perceber, mas se der certo, você já está bem ali, a um passo do que é certo, do que é seu. Você achava que ser otimista era como acreditar na Terra do Nunca, mas olha só, é tão real que parece até mentira! Posso te contar mais uma coisa? Muitos problemas ainda vão aparecer, mas com essa visão nova, você vai conseguir passar por eles e encontrar coisas boas. 

Agora, você não acha que tudo sempre vai dar errado, você luta pelo que pode, abre mão quando sabe que em breve algo vai escapar e o melhor de tudo, você descobriu que o otimismo te fez achar o passado chato e por isso você correu atrás de novas coisas. E o pessimismo? Ah, ele só te fez ficar parada por muito tempo em algo cômodo, mas ainda bem que você me ouviu.

"É você olhar no espelho, se sentir um grandessíssimo idiota, saber que é humano, ridículo, limitado, que só usa dez por cento de sua cabeça animal, e você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial que está contribuindo com sua parte para nosso belo quadro social. Eu que não me sento no trono de um apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar." (Raul Seixas - Ouro de Tolo.)


1 º Esse texto foi escrito para o meu eu do passado, e foi difícil ler tudo isso...
2 º A pesquisa do IBGT teve seis votos, todos positivos. Preciso só de um tempo pra conseguir gravar algo, perder um pouco da minha timidez e encontrar alguns temas com base no que vocês pediram pelo formulário e logo, logo o canal no Youtube estará pronto.
3 º Quero agradecer pelos elogios enviados nos formulários e por todas as coisas meigas que me mandaram, eu salvei o formulário no computador pra sempre ler aquilo, algumas pessoas foram muito gentis na resposta, obrigada mesmo! Obrigada também pelos elogios ao layout, faltam algumas coisas pequenas, mas passar três semanas fazendo algo e descobrir que as pessoas gostaram é ótimo, vocês são ótimas(os)!

Um combo triplo pra viagem.



Antes de me conhecer, há algo muito importante a meu respeito que é necessário saber: eu nunca vou, nunca mesmo. De todos os meus defeitos, os que se destacam sem que eu perceba é a preguiça, a insegurança e a ansiedade, juntando os três, temos um combo de fast food, aqueles que te fazem mal, mas você não vive sem.

Já mantive uma alimentação equilibrada, fiz caminhadas e dormi oito horas por dia na intenção de ser menos preguiçosa? Já. Funcionou? Só no primeiro dia. Já tentei superar as coisas colocando a cara e a coragem? Já. Funcionou? Nunca, a insegurança me faz ser tímida desde que me declarei gente, o que faz com que um simples ato de perguntar as horas para alguém se torne um mini infarto, e a ansiedade, bom, esse é um problema que tem uma ligação além do emocional, é uma questão de saúde, então só vou vivendo, contando até dez quando tenho sensações estranhas e respirando profundamente. Esse combo triplo de fast food, me faz cotidianamente deixar de fazer coisas que quero. Combino de sair com pessoas que eu realmente gosto, mas no dia sempre penso em um jeito de escapar porque a preguiça não deixa, e vai que acontece alguma coisa ruim, né? Melhor ficar em casa.

Prevenção é um detalhe importante pra vida, muitas cacas podem deixar de acontecer graças a ela, mas quando pensamos demais em algo, paramos de fazer coisas muito simples, e isso se tornou um problema tão grande, que eu fico aqui vendo metade dos blogs que acompanho participando do BEDA (Blog Everyday August) e a única coisa que eu sei é pensar em como eu queria estar participando também, e adivinhem só por que eu não me joguei nessa maré toda de posts diários? Porque antes eu decidi passar no meu fast food mental e pedir um combo triplo.


Eu estou chateada? Bastante.
Foi melhor assim? Não sei dizer.
Os dedos até coçam pra participar mesmo atrasada? Todos os dias.
Eu vou participar? Quem sabe no ano que vem.
As condições emocionais expressas nesse blog não são recomendadas pelos especialistas. Em caso de sentimentos parecidos, procurar ajuda.

* Como eu vim a este mundo destinada a sofrer e não estou participando, vou deixar aqui os links dos blogs que estão fazendo o BEDA e que eu acompanho (em ordem alfabética pra não ter briga): Deixa Molhar; Ela, Rafaela; Me Paga Uma Coca?; Milarga; Minha Vida Como Ela É; SO CONTAGIOUS; Wink.
© Limonada
Maira Gall